Monday, 24 April 2017

As Fúrias

Antes de começar este capítulo sobre As Fúrias é necessário ponderar duas breves considerações. Primeiro, os deuses da literatura clássica não são alegorias nem metáforas. Alegoria é uma figura de linguagem de uso retórico que consiste em extrapolar a semântica de dado objeto, seja este uma pintura, uma escultura ou um poema. 
Uma alegoria não é um conjunto de metáforas como vulgarmente pode-se ouvir por aí. Um conjunto de metáforas é, por exemplo, uma descrição de um objeto onde suas partes são tomadas em comparação a outras. Ao descrever a mulher amada o amante pode dizer: seus olhos são o sol, sua boca é uma rosa, seu corpo é uma escultura, etc, isto é um conjunto de metáforas. 
Esta ressalva é importante pois seguindo um comentário de J. R. R. Tolkien, autor de uma saga épica moderna, O Senhor dos Anéis, a alegoria destrói a perspectiva real das personagens. O Senhor dos Anéis não é uma alegoria da Segunda Guerra Mundial, os Hobbits não são alegorias de alguma civilização existente.
Ao considerar alguma personagem ou espaço como alegoria, o sentido real da representação destes na obra perde seu valor e passa a ser mera marionete volúvel do desejo egocêntrico do leitor. 
O mesmo acontece nas obras épicas clássicas. Zeus não é uma alegoria do poder. É uma personagem com características específicas dentro da Ilíada e da Odisseia. Do mesmo modo devemos tratar das Fúrias. As Fúrias não são meras alegorias para representar emoções humanas desgastadas e vis. São personagens ativas com características próprias dentro da obra. 
A segunda consideração concerne ao gênero da existência humana presente na literatura épica. A maioria dos leitores não se importam em apreciar tal tipo de obra com demasiado peso trágico. As questões propostas pelos autores clássicos são essenciais para a compreensão da existência humana e seu lugar dentro de uma sociedade politicamente organizada.
São questões simples, que por isso mesmo engrandecem o valor universal da obra: quem poderia ousar descrever o quanto uma pessoa pode amar outra, a ponto de deixar todos seus deveres cívicos de lado e lutar contra seus próprios amigos e aliados de guerra para ter esse amor? Já vimos como isso aconteceu com Elisa. Aquiles está nesta primeira questão, pois ele deixa de lado seu dever militar para defender seu amor por Briseida, e com isto leva seus compatriotas e amigos para a escuridão.
Entender porque nós humanos fazemos o que fazemos. Porque enganamos nossos melhores amigos? Porque recompensamos nossos inimigos? Porque vamos à guerra e sacrificamos nossas vidas por uma causa perdida? Porque nós perdoamos os outros desafiando a lógica e as leis da natureza com um único e simples ato de compaixão? O ser humano é fraco e cheio de defeitos. A tragédia nos traz isso como uma tapa na cara, mas ao mesmo tempo como um beijo suave do ente amado. 
O herói moderno muitas vezes é alguém caído, corrupto, destruído emocionalmente e que na busca da sua redenção acaba encontrando um fim trágico exposto pelas forças ocultas do destino. Como é o caso do Fausto de Goethe. O vício, a fofoca, o orgulho e a vingança são características universais da humanidade. Quem não se identifica com esse tipo de fraqueza humana é alguém com pouca humildade. 
Naquilo que reside dentro da alma de cada um de nós, Homero, Virgílio e outros autores souberam tomar a medida certa. E dentre toda esta miríade de sentimentos humanos muitas vezes indescritíveis e por natureza ilógicos, os clássicos sempre valorizaram o principal elemento que quebra a harmonia: a raiva. 
A raiva, ou a fúria é composta daquilo que não pode ser racionalizado. Um segundo de nossas vidas tomados pela cólera pode transformar nossa história para sempre, pode nos arrojar no inferno e nos deixar solitários e vagando pelas estrelas da culpabilidade. A raiva surge naquilo que a humanidade não pode controlar pois não é inteligível. É um aspecto animal que transcende nossa alma. A fúria oblitera a capacidade humana de raciocinar de forma benevolente, de atingir algum espectro de lógica e buscar uma solução serena para beligerâncias mundanas. 
Quando o coração bate forte demais e não sabemos por que. E qual ser humano pode se considerar livre desta angústia espiritual. Quem nunca sentiu os chicotes da cólera perpetrar seus ossos não deve ser humano. A ira é um pecado capital para os católicos. É apenas um passo na ribanceira que nos faz cair na loucura, no desmedido, no puramente animal que existe dentro de cada um de nós. 
A literatura clássica é a mãe da pedagogia humana. A tragédia nos ensina a ter fé e controle sobre aquilo que amamos principalmente. Pois é justamente a perda daquilo que temos mais cuidado que pode levar ao descontrole emocional. Antes da fúria está o medo inconsciente de perdermos. O orgulho humano aliado ao medo é incapaz de aceitar a perda. E quem vive sem perder nada? As vezes por perder dez minutos no trânsito já ficamos impacientes e raivosos.
Nem os santos ou heróis são imunes á fúria. Aquiles é um exemplo, não uma alegoria como já foi dito, de bondade, beleza e justiça. E são justamente estes valores elevados que levam o herói a não aceitar uma injustiça descabida. Por ser bom e justo Aquiles perde o controle emocional e tenta assassinar o filho de Atreu. São as pessoas boas e justas as mais sensíveis à raiva, por terem um senso de justiça elevado não podem aceitar qualquer tipo de crueldade sem ter uma reação. 
A hipérbole no mais das vezes é um recurso usado para educar a civilização naquilo que é mais importante para o desenvolvimento moral de uma sociedade. Imagine um pai que para obter êxito numa empresa militar, imola a própria filha num ritual sinistro para fazer oferta para os onipotentes deuses do Olimpo. 
Este mesmo pai que sacrificou a filha retorna ao lar após dez anos de guerra e acaba sendo assassinado pela esposa e mãe furiosa em conluio com seu amante. Agora imagine o filho deste casal. Ter a irmã sacrificada num ritual por poder e riqueza, e a mãe, num ato de luxúria e ódio assassina friamente o pai. 
Que tipo de reação este miserável filho pode ter diante do iminente descontrole de seus pais? E a lei humana não o socorre numa encruzilhada destas. A lei humana diz claramente que o filho tem a prerrogativa moral de vingar-se do assassino do pai sem sofrer nenhuma penalidade. Contudo, esta mesma lei diz que um filho não pode assassinar a própria mãe. Como no verso 331, Livro III da Eneida, onde Orestes mata o filho de Aquiles tomado pelas Fúrias Ast illum, ereptae magno inflammatus amore, coniugis et scelerum Furiis agitatus, Orestes excipit incautum patriasque obtruncat aras.
Esta é apenas uma pincelada da tragédia Oresteia, escrita por Ésquilo. A literatura clássica é pesada para nossos contemporâneos e causa espanto e terror naqueles que a presenciam. Por não entender o sentido profundamente humano e pedagógico da literatura clássica, os contemporâneos a condenam por hedionda, criminosa, insidiosa. 
Um caso pueril e recente em nossa história aconteceu com a banda de blues The Doors há poucos anos. Em uma música chamada "The End" a banda narra a história de um filho que anseia por assassinar o próprio pai e ter relações sexuais com a própria mãe:

The killer awoke before dawn, he put his boots on 
He took a face from the ancient gallery 
And he walked on down the hall 
He went into the room where his sister lived, and...then he 
Paid a visit to his brother, and then he 
He walked on down the hall, and 
And he came to a door...and he looked inside 
Father, yes son, I want to kill you 
Mother...I want to...fuck you. 

(The Doors: The End - Sunset Sound Recorders/Elektra, 1967)

Traduzindo livremente: O assassino acordou antes do amanhecer/calçou suas botas/Ele deu uma olhada pela antiga galeria/e seguiu pelo corredor/ele foi até o quarto onde sua irmã morava e então ele/visitou o seu irmão e então ele/seguiu pelo corredor e/ele chegou até uma porta e ele olhou lá dentro:/Pai? _Sim filho. Eu quero te matar/Mãe? Eu quero foder você.
O impacto causado por esta citação simples da notória tragédia grega Édipo Rei fala por si mesmo. O vocalista da banda foi preso mais de uma vez no palco por recitar estes versos publicamente, considerados ofensivos para a sociedade. No álbum de estúdio eles cortaram a parte na qual o filho diz que quer transar com a mãe. A literatura clássica é uma ameaça aos tabus construídos pela nossa sociedade obsessiva. 
Não entendo e não quero entender, este é o argumento de defesa da nossa sociedade. Ou então como meu filho vai ouvir uma música dessa? Como podemos educar nossas crianças com essas atrocidades inventadas pelos gregos antigos? O senso comum é estupendo na arte de aniquilar aquilo que é belo e foi criado sem o intuito de macular os valores morais da sociedade.
Canta, ó Musa a ira do filho de Peleu, Aquiles. No proêmio da Ilíada, no Canto I, ou seja logo nos primeiros versos, o poeta invoca as imortais Musas para inspirar seu canto. As Musas são as filhas de Zeus e Mnemosine, deusa da memória.
O tópico principal que inicia a Ilíada é a Menis de Aquiles e seu efeito devastador sobre os seus camaradas aqueus. A palavra grega Menis que é convencionalmente traduzida como "ira", como no verso 1 da Ilíada, em Homero sempre denota um sentido especificamente de "ira divina". Destarte a ira de Aquiles está associada com a vingança tempestuosa dos deuses que é consequência de uma transgressão de propriedade privada divinamente sancionada pelas ordens da sociedade civil e do cosmos.
A promessa macabra de cantar os corpos dos heróis como presa para as bestas nunca é completada na Ilíada. Como na tradução de Haroldo de Campos que segue abaixo, os heróis como espólio para os cães, pasto de aves rapaces. A transgressão da propriedade privada se dá no momento em que Agamemnon, num ato de "doce estupidez" expropria Briseida do acampamento de Aquiles, num ato de orgulho por ter perdido seu próprio espólio, Criseida. Apolo então lança uma pestilência sobre as embarcações argivas e obriga Agamemnon a devolver Criseida para sua família em troca de um resgate.
A ira de Aquiles acontece, pois o herói não considera Briseida apenas como sua propriedade privada, como mero espólio de guerra, mas por ter desenvolvido um sério afeto pela sacerdotisa troiana, e quiça até tenha se apaixonado profundamente por ela. Celebrar a ira de Aquiles é uma forma de trazer As Fúrias para a cena, mas usando um recurso muito comum no teatro que é aquilo que acontece "atrás do palco" ou por detrás das cortinas. As Fúrias estão ali mas não são citadas literalmente como acontece em muitos momentos da Eneida. Observemos um trecho do proêmio da Ilíada: 

A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles,
o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas
trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades
de valentes, de heróis, espólio para os cães,
pasto de aves rapaces: fez-se a lei de Zeus;
desde que por primeiro a discórdia apartou
o Atreide, chefe de homens, e o divino Aquiles.
Que Deus, posto entre ambos, provocou a rixa?
O filho de Latona e Zeus. Irou-o o rei

(Homero - A Ilíada: Canto I - Tradução de Haroldo de Campos - Editora ARX, 2002)

Nenhum herói torna-se um cadáver insepulto na Ilíada, como é prometido no proêmio. Até mesmo Hector foi poupado dessa desgraça, pois mesmo no auge de seu desvario, Aquiles teve o bom senso de devolver o corpo do guerreiro troiano para Príamo em troca de um valoroso resgate. Seguindo esta linha de raciocínio, o que faz com que um poeta decida cantar e celebrar a loucura? A fúria como tema principal de uma obra que é um dos pilares da literatura ocidental.
A doce loucura de Agamemnon ao exigir um espólio que não era seu gera invariavelmente a ira de Aquiles e toda as consequências que seguem a isto para o desfecho e trágico final dos heróis. A doce loucura ou estupidez de Agamemnon pode ter iniciado quando ele decidiu sacrificar a própria filha Ifigênia.
No contexto da Eneida, As Fúrias são citadas em vários momentos. São elas Tisífone, Megera e Alecto. Não obstante, há um papel de destaque apenas para a mais velha das Fúrias, Alecto, dentro da Eneida. Para mais informações sobre as outras Fúrias basta dar um clique no navegador e ir na famosa wikipédia.
A primeira citação das Fúrias acontece no Livro I quando o poeta narra o assassinato de Siqueu, ex-marido de Dido, por Pigmalião, irmão dela. Pigmalião estava dominado pela influência das Fúrias:

Huic coniunx Sychaeus erat, ditissimus agri
Phoenicum, et magno miserae dilectus amore, 
cui pater intactam dederat, primisque iugarat
ominibus. Sed regna Tyri germanus habebat
Pygmalion, scelere ante alios immanior omnes.
Quos inter medius uenit furor. Ille Sychaeum
impius ante aras atque auri caecus amore
clam ferro incautum superat, securus amorum
germanae; factumque diu celauit et aegram
multa malus simulans uana spe lusit amantem. 

(Eneida - Livro I: versos 344-351)

No capítulo anterior, Lavínia, há algum tipo de referência a ação prática da Fúria Alecto sobre Amata esposa do rei Latino e sobre o rei dos rútulos Turno. Em um outro instante destes escritos há uma promessa de narrar com mais detalhes a fúria de Dido ao ver os troianos partirem, e junto com eles seu eternamente amado Eneias. Este adendo tem um lugar devido aqui neste capítulo e passaremos a explorar melhor esta especificidade.
Ao perceber de sua atalaia os navios troianos partindo e as praias vazias, Dido golpeia seu peito três ou quatro vezes com ódio e começa a puxar seus próprios cabelos loiros. Dido, tomada pela influência negativa das Fúrias começa a reclamar com o pai dos deuses Júpiter.
"Há deste homem escapar de mim Júpiter?" Grita Dido no ápice de sua impetuosidade. Ela continua a questionar consigo mesma como este estrangeiro foi até lá para zombar dela em seu próprio reino. Dido comanda seus homens para iniciar guerra contra os troianos, mas estes já estão longe.
Em um raro momento de lucidez Dido questiona suas próprias palavras: mas o que estou dizendo? onde estou? Que desvario me cega a esse ponto?
Dido infeliz sente o peso da sua desgraça, o fato consumado e imutável da perda do amor. Vê-lo partir sem nada poder fazer a não ser ranger os dentes e gritar. O amor transformado em fel pelo talante da ventura. O não amor logo vira-se como vinho em vinagre. O desejo de Dido é esquartejá-lo e lançar seu corpo insepulto nas ondas do mar. Matar todos seus camaradas troianos, e a seu filho Ascânio (absurdo!), bem, Dido tenciona ofertar o corpo do menino em um banquete, para servir como um prato excelente.
Novamente Dido questiona-se, tem um milhão de dúvidas e sentimentos confusos que se debatem dentro dela, jogando a alma e o coração um contra o outro, destruindo-a completamente: "Mas fazendo tudo isto a vitória estaria ao meu lado? Que importa? Quem vai morrer deve temer o que? Se pudesse, continua Dido, incendiaria imediatamente seu acampamento, colocaria fogo nos navios e de um golpe extinguiria o pai e o filho, essa raça maldita, e ao fim daria cabo da minha jubilosa vida.
Logo Dido invoca Juno, Hécate e as Fúrias, do mal vingadoras, para ouvir sua prece sombria e maligna. Em sua prece Dido ambiciona que Eneias seja derrotado e abatido no Lácio, que veja seu filho e seus companheiros de viagem mortos, que jamais goze de um reino e que prematuro pereça e insepulto seu corpo na areia se desfaça:

Regina e speculis ut primam albescere lucem
uidit et aequatis classem procedere uelis,
litoraque et uacuos sensit sine remige portus,
terque quaterque manu pectus percussa decorum
flauentisque abscissa comas ‚pro Iuppiter! ibit 
hic,‘ ait ‚et nostris inluserit aduena regnis?
Non arma expedient totaque ex urbe sequentur,
diripientque rates alii naualibus? ite,
ferte citi flammas, date tela, impellite remos!
Quid loquor? aut ubi sum? quae mentem insania mutat? 
Infelix Dido, nunc te facta impia tangunt?
Tum decuit, cum sceptra dabas. en dextra fidesque,
quem secum patrios aiunt portare penatis,
quem subiisse umeris confectum aetate parentem!
Non potui abreptum diuellere corpus et undis 
spargere? non socios, non ipsum absumere ferro
Ascanium patriisque epulandum ponere mensis?
Verum anceps pugnae fuerat fortuna. fuisset:
Quem metui moritura? faces in castra tulissem
implessemque foros flammis natumque patremque 
cum genere exstinxem, memet super ipsa dedissem.
Sol, qui terrarum flammis opera omnia lustras,
tuque harum interpres curarum et conscia Iuno,
nocturnisque Hecate triuiis ululata per urbes
et Dirae ultrices et di morientis Elissae, 
accipite haec, meritumque malis aduertite numen
et nostras audite preces. si tangere portus
infandum caput ac terris adnare necesse est,
et sic fata Iouis poscunt, hic terminus haeret,
at bello audacis populi uexatus et armis, 
finibus extorris, complexu auulsus Iuli
auxilium imploret uideatque indigna suorum
funera; nec, cum se sub leges pacis iniquae
tradiderit, regno aut optata luce fruatur,
sed cadat ante diem mediaque inhumatus harena. 
Haec precor, hanc uocem extremam cum sanguine fundo.
Tum uos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum
exercete odiis, cinerique haec mittite nostro
munera. nullus amor populis nec foedera sunto.

(Eneida - Livro IV: versos 586-624)

Já sabemos o infeliz resultado da frustração da rainha fenícia Dido. Sabemos também que uma coisa leva a outra. O medo traz a insegurança, o ciúmes, o egoísmo e estes logo tornam-se raiva, fúria, ódio. A ira desvariada de Aquiles fez ele abandonar o campo de batalha, como forma de se vingar do filho de Atreu por ter se apropriado de sua amada.
A inércia de Aquiles causou um ruído estrondoso em seu amado primo Patroclo, e este decide irresponsavelmente tomar as armas de Aquiles e lutar contra os troianos tomando a postura do grande herói. Patroclo acaba sendo morto por Hector em combate. Aquiles fica ainda mais furioso e decide entrar em combate singular com Hector. Aquiles mata Hector e amarra os pés do herói troiano à sua biga enquanto dá voltas pelas muralhas de Troia amaldiçoando a raça de Príamo.
Talvez nossos contemporâneos levem strictu sensu o sentido da palavra pedagogia. paidos sendo criança e gogía condução. Como se apenas as crianças e os estudantes tivessem o dever de serem educados. Para os antigos estamos sempre em processo de aprendizado e melhoramento espiritual, moral e cívico. Sempre há algo novo para se aprender, e neste sentido, seria bom que o dom da curiosidade, da vivacidade diante de uma nova descoberta, a alegria da descoberta tão comum nos pequenos estivesse como uma chama acesa dentro dos adultos, que por serem profissionais ou graduados pensam não ter de aprender mais nada.
E somos nós adultos que temos a obrigação de entender aquilo que nos move e que principalmente está fora do nosso controle, sendo a fúria desmedida um desses defeitos tão explorados pela literatura clássica. A raiva conduz invariavelmente ao erro. A perda da razão. Numa discussão não importa quem está certo quem está errado, mas se alguém grita ou levanta a voz primeiro, esta pessoa está errada.
O erro nem sempre é um crime capital. Mas muitas vezes o erro conduz ao crime. E então somos punidos por nossa própria falta de controle, somos punidos por deixarmos de lado nossa humanidade e cultuarmos num altar sagrado o orgulho, pai do ego e daquilo que existe de mais feio em todo ser vivo. Agir como um cão que ladra ao ver outro cão, como um leão que devora suas presas. Viver em sociedade requer responsabilidade e sobriedade acima de tudo.
Entender nossas fraquezas por meio de arte literária e, acima de tudo, aceitá-las como parte da nossa composição é um dos caminhos para evitar o erro. Evitar o exagero. A busca pelo poder e pelo conhecimento. O orgulho de ter e saber não são suficientes para frear os impulsos da cólera. E quantos absurdos não acontecem na nossa sociedade de hoje só porque alguém decidiu deixar se levar pelos instintos mais brutais?
Tomemos a lição dos estoicos e apliquemos estas teorias em nossas vidas. Prudência para que possamos avaliar com cuidado a arte, a vida e outros irmãos que estão ao nosso redor. Coragem para que possamos enfrentar as dificuldades da vida, as perdas que estão fora do nosso controle. Temperança, irmã da coragem para que possamos resistir às tentações daqueles ignorantes que tentam nos conduzir para o caminho da perversidade, resistir as provocações e as tentações do ego. Justiça para que não sejamos hipócritas ao ponto de julgar outrem sendo nós mesmos os caídos e corruptos.


C. H. Barbosa - As Fúrias ou A Ira 





Friday, 24 March 2017

Lavínia

Tratamos aqui neste capítulo de um tipo de relação muito comum em várias sociedades, o casamento como forma de construção de um poder social. Quando não há nenhuma relação afetiva entre o casal, quando estes mal conhecem um ao outro e, por dever social, devem formar um matrimônio para manter um patrimônio.
Um casamento de aparências onde aquele não ama esta e vice-versa, sendo provável que este casal nunca tenha se visto durante a vida, e, juntos, formam um par elegante e modelar para a sociedade circundante. É conveniente demonstrar para a sociedade que há uma união legal, amparada pelo desejo dos deuses, e no entanto manter apenas o simulacro desta relação.
Antes de refletir sobre estes aspectos conjugais na literatura clássica seria oportuno destruir um paradigma anacrônico. Muito frequentemente ouve-se nos corredores de universidades, em salas de aula e até em artigos acadêmicos sérios que Homero é machista. Que Virgílio é machista. Assim como Platão acreditava que a fantasia literária era prejudicial para o pleno desenvolvimento da Paideia, do cidadão moralmente elevado da Pólis, os hodiernos adquiriram este vício de criticar aquilo que não entendem, ou pior, jamais leram.
Dizer de forma séria que os autores clássicos são machistas é um anacronismo e uma falta de sensibilidade estética imperdoável. Isso só pode ser dito por aqueles que nunca leram sequer um verso da Odisseia ou da Eneida. Aqueles que se contentam com uma fortuna crítica tardia, desapegada de qualquer valor cultural real do que era a sociedade grega e romana de fato. 
Outros, ainda mais ignorantes do que estes, acusam os romanos de terem sido "homossexuais". Como eu posso aplicar conceitos criados no século XIX como machismo e homossexualidade numa obra e numa cultura que desconhecia estes termos? 
O recalque platônico é latente em muitos contemporâneos ansiosos por falar daquilo que nunca conheceram. Platão era um pensador que usava da teoria e do método como forma de atingir uma suprema verdade a respeito do homem, da moral, da sociedade e até de Deus. Platão escrevia de forma teatral, apesar de repugnar Homero. O poeta usa da ficção artística para que o leitor possa atingir a sua verdade. Em termos simplistas Platão usa da filosofia, da verdade para atingir a mentira, e Homero usa a mentira para atingir a verdade. 
Homero não é um cientista ou teórico que defende que as mulheres são seres inferiores. E como já foi dito, quem defende esta hipótese do machismo homérico nunca teve coração para ler a Ilíada, pois já parte do pressuposto que é impossível ler uma obra machista. Esse tipo de preconceito é oriundo da ignorância generalizada que perpetra os muros das academias desde a Atenas clássica. Criticar aquilo que não se conhece é um erro metodológico pueril. Em suma, Platão não leu corretamente os clássicos, pois já estava permeado de preconceitos. 
E eu não sei que tipo de pensamento crítico e socialmente construtivo é este que acaba num determinismo e numa superficialidade hedionda. Rotular com uma palavra ou um conceito um espectro magnânimo de relações históricas e poéticas. É moda dizer palavras chaves para classificar aquilo que não se entende: isto é machista. Aquilo é misógino. Este é homofóbico. Com estes rótulos simplificadores acreditam ter uma postura crítica e uma contribuição social. Como se chamar um criminoso de bandido transformasse a sociedade como uma mágica da fata Morgana.
Pensar com respeito a sociedade é uma atividade trabalhosa e que requer muita dedicação. A maioria contenta-se com ideias prontas advindas de formadores de opinião. Deixando estes novos platões ao lado, voltemos a tratar da relação conjugal na literatura clássica. Helena era casada com Menelau, rei de Esparta e acabou sendo raptada por Páris e levada para Troia. Mas quem acusa Homero geralmente assistiu a alguma adaptação ridícula da Ilíada para o cinema comercial. 
O nome da obra homérica é "Ilíada", o que significa mulher troiana. Helena deixa de ser espartana contra a sua vontade e torna-se uma ilíada. A filha de Tindareu é o centro das atenções na obra homérica. Em segundo lugar aparece a ilíada Briseida, raptada pelos mirmidões que acaba tendo uma relação com Aquiles, tema do Canto I da Ilíada. Uma relação de amor verdadeiro, que acaba por ser trágica, num mundo onde homens e mulheres devem cumprir com seus deveres. 
E o que a personagem Lavínia tem a ver com tudo isso? Lavínia não é uma personagem central na Eneida. Ela quase não fala e não aparece na obra, e, diferente de Helena ela não foi raptada por um estrangeiro. Lavínia é uma adolescente solteira que deve casar-se com um estrangeiro com a finalidade de fortalecer o patrimônio territorial de uma nação. 
De outro lado da moeda Eneias nunca amou Lavínia, e, se dependesse da vontade do anquisíada, ele casaria-se com seu grande amor, a rainha fenícia Dido. Só que o destino ou os fados tinham outros planos para o herói troiano. O amor por Dido não iria consolidar uma aliança militar forte o suficiente no Lácio. O casamento por aparências e por necessidades estritamente materialistas é então o tema da tragédia de Dido. Não basta um amor espiritual puro entre duas almas apaixonadas.
O deus Mercúrio já havia alertado Eneias do seu dever na Itália, como tratado no capítulo Elisa. Durante a catábase de Eneias, seu pai o revela que Lavínia será sua futura esposa, que juntos irão gerar um filho chamado Sílvio Albano, já na velhice de Eneias, e que este Sílvio Albano será educado para ser rei nas selvas espessas, e dará origem aos reis de Alba Longa:

siluius, Albanum nomen, tua postuma proles,
quem tibi longaeuo serum Lauinia coniunx
educet siluis regem regumque parentem,
unde genus Longa nostrum dominabitur Alba. 

(Eneida, Livro VI - v. 763-766)

Em um outro momento da narrativa, quando Lavínia estava queimando incensos nos altares junto com seu pai Latino, acontece um terrível presságio. De repente as chamas passaram a queimar os cabelos da jovem Lavínia, seus belos ornamentos, seu diadema de pedras preciosas e o fogo espalha pelos outros aposentos do templo. 
Aquela visão causou horror e espanto naqueles que presenciaram a cena. Para Lavínia era um presságio de fama e prestígio. Mas para o povo este agouro indicava muitos trabalhos e guerra.

Praetera, castis adolet dum altaria taedis
et iuxta genitorem adstat Lauinia uirgo,
uisa (nefas!) longis comprendere crinibus ignem
atque omnem ornatum flamma crepitante cremari
regalesque accensa comas, accensa coronam
insignem gemmis; tum fumida lumine fuluo
inuolui ac totis Vulcanum spargere tectis.
Id uero horrendum ac uisu mirabile ferri:
namque fore illustrem fama fatisque cabebant
ipsam, sed populo magnum portendere bellum.

(Eneida, Livro VII - v. 71-80)

Preocupado com aquele presságio, Latino promove uma consulta com seu pai adivinho, Fauno, na selva mais densa da região. Latino então oferece o sacrifício de cem ovelhas tenras com a intenção de ver o futuro. Fauno se deita sob as peles das ovelhas sacrificadas e dá o vaticínio para o filho. Fauno pede para Latino esquecer esta ideia de dar Lavínia para um marido latino, pois um genro estrangeiro irá levá-la, cujos filhos e netos irão submeter cem povos sob o império de leis rigorosas e sábias. Este império irá abranger todo o curso do sol, desde o oceano nascente até o poente. 

"Ne pete conubiis natam sociare Latinis;
o mea progenies, thalamis neu crede paratis;
externi uenient generi, qui sanguine nostrum
nomem in astra ferant quorumque a stirpe nepotes
omnia sub pedibus, qua Sol utrumque recurrens
aspicit Oceanum, uertique regique uidebunt".

(Eneida, Livro VII - v. 96-101)

Em capítulos futuros pretendo desdobrar a atuação das deusas na Eneida. O próximo capítulo irá ser sobre as Fúrias, Alecto, Tisífone e Megera. O seguinte irá abordar o diferente papel da deusa Vênus sob o herói troiano comparado com Atena  e Aquiles/Odisseu e no mês de junho, obviamente, tratarei de Juno. 
Por enquanto é sábio observar o cuidado de Virgílio no trato com as potências do destino, que, segundo Maquiavel, não podem ser ignoradas. Para Maquiavel o destino controla metade dos eventos ocorridos em nossas vidas, cabendo ao homem de virtude aceitar este poder ulterior que está além do seu ego, para, em momento propício concedido pela vida e pelo destino, aproveitar as oportunidades.
Eneias e Lavínia são personagens virtuosas e que no entanto não possuem nenhum poder contra a vontade dos deuses. A satúrnia Juno passara a odiar os troianos desde o famoso julgamento de Páris, cuja decisão de escolher Vênus como a mais bela entre as deusas decepcionara Juno. Desde então a satúrnia tem trabalhado com vigor para prejudicar todas as ações dos troianos e isto também está presente na Eneida.
Juno não se conforma com a chegada de Eneias ao Lácio. A esposa de Júpiter então percebe que seus poderes de nada valem contra os troianos e decide apelar para forças inferiores. É célebre a passagem em que Juno diz que já que no céu nada alcanço, recorro às potências do inferno. Uma vez que a deusa não pode dobrar o destino férreo, que dita a união entre Lavínia e Eneias, Juno decide ao menos retardar a ação de Eneias no Lácio e desgastar suas reservas de guerreiros.
O plano sombrio de Juno é fazer com que o casamento do troiano com a latina seja feito em bodas de sangue, e que o povo sofra o ônus dessa união indesejada pela deusa. Como madrinha das bodas, segundo Juno, terão a deusa da guerra Belona.
Juno diz que Eneias será outro Páris e que outra vez as chamas das bodas de Troia irá incendiar a cidade. Os romanos portavam uma tocha nos matrimônios que passou a simbolizar o próprio matrimônio. 
Assim, Juno desce até o inferno, furiosa, em busca das irmãs assustadoras, neste caso, Alecto infernal, que se delícia apenas com traições, crimes negros e guerras infinitas. Até Plutão detesta Alecto e suas irmãs, Tisífone e Megera esquivam-se dela:

Ast ego, magna Iouis coniunx, nil linquere inausum
quae potui infelix, quae memet in omnia uerti,
uincor ab Aenea. Quod si mea numina non sunt
magna satis, dubitem haud equidem implorare quod usquam est:
flectere si nequeo superos, Acheronta mouebo.
Non dabitur regnis, esto, prohibere Latinis,
atque immota manet Fatis Lauinia coniunx:
at trahere atque moras tantis licet addere rebus,
at licet amborum populos exscindere regum.
Hac gener atque socer coeant mercede suorum:
sanguine Troiano et Rutulo dotabere, uirgo,
et Bellona manet te pronuba. Nec face tantum
Cisseis praegans ignes enixa iugales;
quin idem Veneri partus suus et Paris alter
funestaeque iterum recidiua in Pergama taedae.
Haec ubi dicta dedit, terras horrenda petiuit;
luctificam Allecto dirarum ab sede dearum
infernisque ciet tenebris, cui tristia bella
iraeque insidiaeque et crimina noxia cordi.
Odit et ipse Pluton, odere sorores
Tartareae monstrum: (...)

(Eneida, Livro VII - v. 308-329)

Juno pede para a virgem da noite usar seus poderes de semear a discórdia até entre irmãos muito unidos para arrumar um jeito de desfazer este trato, este casamento de Eneias com Lavínia, e espalhar a guerra entre latinos, troianos e rútulos. 

"Hunc mihi da proprium, uirgo sata Nocte, laborem,
hanc operam, ne noster honos infractaue cedat
fama loco, neu conubiis ambire Latinum
Aeneadae possint Italosue obsidere fines.
Tu potes unanimos armare in proelia fratres
atque odiis uersare domos, tu uerbera tectis
funereasque inferre faces, tibi nomina mille, 
mille nocendi artes. Fecundum concute pectus, 
disice compositam pacem, sere crimina belli;
arma uelit poscatque simul rapiatque inuentus".

(Eneida, Livro VII - v. 331-340)

Alecto conhece artes mil e variadas de fazer mal. Então a virgem da noite vai até o belo Lácio e à morada dos laurentes, onde encontram-se o rei Latino e a rainha Amata. Alecto infiltra-se de mansinho no leito de Amata que já estava um pouco nervosa com a chegada dos troianos e o casamento prometido de Lavínia com o rei dos rútulos, Turno. 
Enquanto Amata queixava-se e gemia sozinha no quarto, Alecto usa seus poderes malignos para envenenar ainda mais a alma da rainha. O vírus da maldade penetra sem ser sentido em todos os fracos sentidos da rainha. Desse modo, inflamada pela influência malevolente de Alecto, Amata vai ter com Latino, e chora para o marido sobre as bodas futuras com o frígio Eneias.
Amata, inconformada, diz a Latino: "Senhor, vai dar Lavínia como esposa para este teucro sem pátria? Você não tem pena da própria filha nem piedade da pobre mãe? O pastor frígio com essas estratégias não entrou em Esparta e a bela filha de Leda roubou para levá-la até Troia? Teus juramentos e tua fé de nada valem? E a sua palavra empenhada com Turno?"
Amata ainda argumenta que se Lavínia deve casar-se com um estrangeiro, que Turno, por sua vez, também é estrangeiro, sendo ele descendente de Ínaco e Acrísio de Micenas. Contudo estes questionamentos e pedidos de Amata não surtiram nenhum efeito no já decidido rei Latino.

"Exsulibusne datur ducenda Lauinia Teucris,
o genitor, nec te miseret nataeque tuique?
Nec matris miseret, quam primo Aquilone relinquet
perfidus alta petens abducta uirgine praedo?
An non sic Phrygius penetrat Lacedaemona pastor
Ledaeamque Helenam Troianas uexit ad urbes?
Quid tua santa fides, quid cura antiqua tuorum
et consanguineo totiens data dextera Turno?
Si gener externa petitur de gente Latinis
idque sedet Faunique premunt te iussa parentis,
omnem equidem sceptris terram quae libera nostris
dissidet externam reor et sic dicere diuos.
Et Turno, si prima domus repetatur origo,
Inachus Acrisiusque patres mediaeque Mycenae".

(Eneida, Livro VII - v. 359-372)

Agora iremos dar um pulo até o Livro XII onde o plano de Juno já surtira alguns efeitos e onde começam os preparatórios para o duelo entre Eneias e Turno para decidir quem irá se casar com a princesa Lavínia. Amata, dominada pela influência de Alecto acaba com cometer suicídio levando a filha ao desespero. 
Como no Livro XII encerram-se muitos aspectos decisivos para a narrativa e o contexto da viagem de Eneias, prefiro deixar esta parte para um momento mais oportuno, contando que estou sendo meio redundante, uma vez que parto do pressuposto que o leitor já leu ou está lendo a Eneida. Por isso me acho muito repetitivo às vezes pois sei que o leitor esta a par do que estou dizendo. 
Concluindo esta breve empreitada digo que não acho fácil a leitura da Eneida. Estou lendo esta obra há praticamente seis meses e ainda não a terminei. Para fazer uma leitura que respeite toda a tradição e história desta obra não posso ler a Eneida como leio uma notícia de jornal um um post no Facebook. 
As vezes fico mais de quinze dias para ler um único Livro. Mas uma leitura estrutural, que vai considerar todos os pormenores e detalhes da obra, e que requerem atualização e pesquisa constante, uma vez que a obra não foi escrita em língua portuguesa, mas em latim. 
Antes de acusar um autor de machista, fascista, chauvinista ou quaisquer destes rótulos permeantes que são como vírus nas acadêmias é imprescindível a leitura, o resumo, a responsabilidade com um texto que atravessou centenas de anos para chegar até nós, e é fonte de deleite até hoje. Reduzir uma obra a um único aspecto, seja ele qual for, é um preconceito e uma limitação cognitiva. Uma imperdoável falta de sensibilidade poética para aqueles que estão acostumados a consumir textos doutrinantes e sabem falar muito, mas não aprenderem o sentido e a virtude da audição. 


Carlos Henrique Barbosa - Lavínia ou uma cidade chamada Roma



Thursday, 16 March 2017

Une Charogne

Rappelez-vous l'objet que nous vîmes, mon âme,
Ce beau matin d'été si doux:
Au détour d'un sentier une charogne infâme
Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l'air, comme une femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d'une façon nonchalante et cynique
Son ventre plein d'exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
Tout ce qu'ensemble elle avait joint;

Et le ciel regardait la carcasse superbe
Comme une fleur s'épanouir.
La puanteur était si forte, que sur l'herbe
Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
D'où sortaient de noirs bataillons
De larves, qui coulaient comme un épais liquide
Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague
Ou s'élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d'un souffle vague,
Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique,
Comme l'eau courante et le vent,
Ou le grain qu'un vanneur d'un mouvement rythmique
Agite et tourne dans son van.

Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,
Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève
Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
Nous regardait d'un oeil fâché, 
Epiant le moment de reprendre au squelette
Le morceau qu'elle avait lâché.

— Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
À cette horrible infection, 
Etoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
Apres les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l'herbe et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et l'essence divine
De mes amours décomposés!

Charles Baudelaire - Une Charogne

Friday, 24 February 2017

Sibila

A Epopeia é um gênero literário composto em versos longos, rimados cujo conteúdo principal é apresentar modelos morais de comportamentos a serem seguidos. A Epopeia é o tipo de narração que exalta os grandes feitos de um povo. Segundo Aristóteles, a Epopeia é o gênero literário pautado pela imitação de homens de moral superior. 
Essas são as primeiras definições didáticas que se podem encontrar numa pesquisa superficial pela internet ou numa aula acadêmica de caráter doutrinante. A Epopeia não é um gênero literário para exaltar os grandes feitos de um povo ou nação. Seria absurdo considerar a análise aristotélica hermenêutica e filosoficamente: qual ou quais tipos de grandes feitos os argivos realizaram ao saquear a cidade vizinha de Troia, estuprar as ilíadas como o Neoptolemo fez com Andrômaca após o assassinato de Hector, roubar os tesouros dos troianos e reduzir sua cidade a cinzas? 
E quais foram os grandes feitos dos portugueses narrados na obra Os Lusíadas senão a conquista de outros povos orientais e a imposição do comércio europeu por intermédio de Vasco da Gama? Os grandes feitos dos portugueses foram, portanto, roubar, matar e escravizar outros povos? Queremos acreditar que com esta vasta fortuna crítica concernente aos clássicos, que isto não pode ser verdade.
Vivemos na era da superficialidade. As pessoas podem saber de tudo que lhes for de interesse, basta digitar um conjunto de palavras num navegador, e o sistema virtual responde, com algumas linhas ou duas páginas de texto. Isso não é suficiente, outrossim viveríamos numa geração de grandes gênios e transformadores da sociedade. A efemeridade das informações, seu caráter volátil as tornam produtos de consumo curtos e insignificantes, rapidamente digeridos e pedindo outro cardápio. 
Ter uma aula sobre literatura clássica, ou ler um texto na internet não torna os indivíduos especialistas no assunto. Hoje em dia qualquer um pode falar cheio de orgulho que leu tais e tantas e obras, sendo que na verdade apenas os resumos foram observados. O conteúdo acadêmico também não está livre da superficialidade, quando se tratam assuntos de extrema complexidade com a única proposta de avaliar os alunos com provas. 
Todos conhecem uma frase da Eneida, todos podem ler um resumo da obra e com isso ficarem satisfeitos tendo a posse de elementos desconexos de uma obra histórica de ampla complexidade. Conhecer um mito narrado na Eneida não significa que o aluno ou professor leram de fato a obra. Conhecer um mito da Eneida é o mesmo que observar uma única parte de uma pintura por uma foto. 
Em uma aula recente, um professor disse que a Sibila era uma bruxa dominada por potências infernais, e que pregava vaticínios, leituras sobre o futuro, além de anunciar o fim dos tempos. Isso pode ser verdade, se considerarmos a informação como didática, desapegada de qualquer senso crítico. Se for considerado a Sibila como bruxa demoníaca do mesmo modo que se considera a epopeia como a narração dos grandes feitos de um povo. (se considerarmos os deuses greco-romanos como demônios por extensão de sentido).
A Sibila pode ser uma bruxa, pode ser pagã e pode ser aliada do Demônio, dentro da recente cultura cristã, como se observa no hino Dies Irae, sobre o fim do mundo. Só que antes do cristianismo existia uma outra cultura, e, obviamente uma outra Sibila, da qual pretendo discorrer agora usando o Livro VI da Eneida.
Dentro do contexto da Eneida, a Sibila é simplesmente uma virgem sacerdotisa do Deus Apolo, cuja função da personagem dentro da obra é guiar Eneias pelos infernos. No Livro V, Eneias é aconselhado por seu pai Anquises em um sonho, que, guiado pela Sibila, deve descer até o Orco para procurar a alma do pai nos Campos Elísios para então saber qual o futuro do povo troiano no Lácio. 
Para chegar até os infernos, Eneias vai até a cidade de Cumas, na Campânia, onde o herói troiano deve encontrar o lago Averno, entrada dos infernos. Nos primeiros versos é narrado a visita de Eneias aos altos cumes onde fica o templo de Apolo e a gruta da horrorosa Sibila, reveladora do futuro:

At pius Aeneas arces, quibus altus Apollo
praesidet, horrendaeque procul secreta Sibyllae
antrum immane petit, magnum cui mentem animumque
Delius inspirat uates aperitque futura.

(Eneida, Livro VI - versos 9-12)

Leia-se "horrorosa" não no sentido físico, mas psicológico. A palavra latina "horrendaeque" poderia ser traduzida também como assustadora, pavorosa, horripilante, etc. A seguir Eneias e sua gente chegam ao bosque da Diana Trívia, ou Hécate, deusa infernal venerada nas encruzilhadas, local exato do templo de Apolo. Neste templo há várias esculturas que deleitam Eneias e sua gente, e numa delas está narrado o mito do escultor Dédalo, que para fugir dos domínios de Minos resolveu criar asas e voar até ao céu. Prodígio de Virgílio, uma escultura falando de um escultor. 
Eneias continua a observar com grande interesse as esculturas gravadas, onde está a história da traição de Pasífaa, esposa de Minos que se deitou com um touro, dando origem ao Minotauro. A frustração de Dédalo ao não conseguir esculpir a história do próprio filho Ícaro ao tentar voar para os céus com asas de cera. Contudo, Dédalo gravara o próprio fracasso de não conseguir esculpir um evento que se lhe tocava demais o coração. 
Eneias estava estupefato com a qualidade dessas esculturas, e, não fosse Acates retornar com a filha de Glauco, A Sibila, certamente ele teria ficado muito mais tempo apreciando estas maravilhosas obras, este espetáculo, como é descrito no referido capítulo.
A primeira coisa que a vate de Apolo diz a Eneias é que não é hora propícia para se entreter com arte, e que é dever do filho de Anquises imolar sete touros e sete ovelhas perfeitos, os mais belos disponíveis:

Deiphobe Glauci, fatur quae talia regi:
"Non hoc ista sibi tempus spectacula poscit;
nunc grege de intacto septem mactare iuuencos
praestiterit, totidem lectas more bidentes".

(Eneida, Livro VI - versos 36-39)

"Deiphobe", em português "Deífobe" significa a que afugenta o inimigo. Ao pé da caverna de Cumas, região ocidental da Hespéria ou Itália, uma enorme caverna se abre, com cem portas imensas e cem passagens subterrâneas, por onde a voz da virgem sacerdotisa de Apolo ecoa. O deus Apolo parece tomar posse do corpo da virgem, pois ela dizia, eis o deus! (deus, ecce, deus!), a aparência física da Sibila se transforma, seus cabelos ficam desgrenhados, os sons mais fundos, arquejante e o coração tomado por uma fúria incontrolável.
A Sibila, possuída pelo deus Apolo, diz a Eneias para adiantar os votos e as preces caso o contrário os portões não vão se abrir. Os troianos sentem o medo penetrar até em seus ossos:

ante fores subito non uultus, non color unus,
non comptae mansere comae; sed pectus anhelum,
et rabie fera corda tument; maiorque uideri
nec mortale sonans, afflata est numine quando
iam propiore dei. "Cessas in uota precesque,
Tros", ait, "Aenea? Cessas? Neque enim ante dehiscent
attonitae magna ora domus". Et talia fata
conticuit. Gelidus Teucris per dura cucurrit
ossa tremor funditque preces rex pectore ab imo.

(Eneida, Livro VI - versos 47-55)

Destarte, Eneias promete construir um templo de mármore para Diana e Apolo, além de um santuário para a Sibila. Então as portas do templo se abrem e a Sibila dá para Eneias um vaticínio sobre sua estadia na região do Lácio. A Sibila diz que a guerra vai tingir os rios Tibre e Xanto de sangue dos beligerantes. A Sibila assegura que a causa deste conflito, como sempre, é a mulher, neste caso Lavínia, filha do rei Latino e da rainha Amata, prometida para o guerreiro rútulo Turno. Entretanto, o pai do rei Latino, Fauno, adverte o filho que Lavínia deve casar-se com um estrangeiro, no caso Eneias.
Nos próximos capítulos iremos nos debruçar sobre os aspectos da princesa Lavínia e da sua relação com os Fados, ou destino. Cumpre saber aqui que a princesa dos latinos não é outra Helena de Troia. A profecia da Sibila ao falar que a culpa como sempre é das mulheres, pode estar fazendo referência ao destino, comandado pelas Parcas e pela atuação direta da satúrnia Juno, deusa inimiga notória dos troianos.

(...) Teucris addita Iuno
usquam aberit, cum tu supplex in rebus egenis
quas gente Italum aut quas non oraueris urbes!
Causa mali tanti coniunx iterum hospita Teucris
externique iterum thalami.

(Eneida, Livro VI - versos 90-94)

Alfim, Eneias pede para Sibila lhe mostrar a entrada para as portas sagradas, e conduzi-lo até o pai Anquises. Neste pedido Eneias cita os heróis que foram até os infernos e retornaram: Orfeu tentando retirar a esposa dos Manes dos Infernos, Pólux alternando com o irmão Castor a estadia no inferno mil vezes, Teseu e Hércules.
É neste momento que a Sibila dá uma resposta bem conhecida para Eneias. A virgem de Apolo diz a Eneias que é muito fácil ir para o inferno, que a porta está aberta de dia e de noite. Mas voltar para a claridade é todo o trabalho mais árduo.

(...) "Sate sangiune diuum,
Tros Anchisiade, facilis descensus Auerno:
noctes atque dies patet atri ianua Ditis;
sed reuocare gradum superasque euadere ad auras,
hoc opus, hic labor est.

(Eneida, Livro VI - versos 125-129)

A Sibila então ensina para Eneias quais recursos deve usar para poder ir e voltar dos infernos em segurança. Primeiro o herói deve encontrar o ramo de folhas áureas escondido sob a copa de uma árvore densa e deve dedicar este ramo de ouro para Prosérpina, esposa de Plutão. Em seguida Eneias deve fazer o ritual funerário do companheiro Miseno e sacrificar animais de cor negra: quatro novilhos negros, uma ovelha para as fúrias e uma vaca virgem para Prosérpina. Obedecendo todas as etapas do procedimento funerário e do ritual macabro, Eneias sepulta o amigo Miseno. Logo duas pombas brancas, sinais da mãe de Eneias, Vênus, aparecem e o guiam pela floresta escura até ele encontrar o ramo de ouro.
A Sibila então conduz Eneias para a entrada dos infernos e, juntos, entram pelo negrume da noite (ibant obscuri sola sub nocte per umbram, literalmente, iam obscuros sob a noite solitária pela sombra).
Já no átrio dos infernos, nas fauces do Orco, a primeira coisa que eles veem é a moradia dos Remorsos, do esquálido Medo, Enfermidades de aspecto soturno, a Velhice ominosa e a Fome má conselheira. A Pobreza depravante, As Mazelas, visões de horror, mais a Morte, seguida do Sono, irmãos gêmeos, os insuportáveis Trabalhos e os Gozos proibidos da mente. A Guerra letal do outro lado, além das Fúrias e a negra Discórdia, a pentear os cabelos de cobras vivas.
Fora estes, outros monstros se encontram por lá: biformes Cilas, Briareu de cem braços, os indomáveis Centauros, a Hidra de Lerna mais a Quimera a lançar fogo pela boca abrasante, as terríveis Górgonas juntas das funestas Harpias, a alma do imenso Gerião de três corpos.
Eis que nos surge um caractere especial e muito estimado na obra de Virgílio: Eneias fica com medo, do mesmo modo que ficou assustado com a possessão divina da Sibila por Apolo. Em vão Eneias tenta sacar da espada e matar aqueles monstros, mas a Sibila o adverte de que são apenas espíritos imaterializados.

Aeneas strictamque aciem uenintibus offert,
et, ni docta comes tenues sine corpore uitas
admoneat uolitare caua sub imagine formae,
irruat et frustra ferro diuerberet umbras.

(Eneida, Livro VI - versos 291-294)

A partir daqui se inicia o caminho que leva até o rio Aqueronte e o barqueiro Caronte, condutor das almas até o reino dos mortos. O barqueiro Caronte é o guardião das águas do rio Aqueronte, com o corpo todo coberto de sujeira, a barba grisalha até o peito, sem nenhum tipo de tratamento. Seus olhos brilham em fulgores, sórdido manto pende de seus ombros, mal sustentado por um nó. O velho barqueiro segura um remo e acomoda o negro barco. Milhares de sombras, almas são procuradas por Caronte, mães, seus maridos, heróis de alma grande privados da vida, belos jovens, virgens solteiras e crianças.
Toda esta multidão de almas estão apinhadas na praia do inferno, pedindo com mãos suplicantes para serem transportadas por Caronte para a outra margem do rio. Admirado com aquela visão, Eneias questiona a Sibila: O que fazem todas estas almas desencarnadas nesta margem do rio? Qual o pedido das almas? Porque algumas são transportadas à outra margem e outras não?

(...) "O uirgo, quid uult concursus ad amnem?
Quidue petunt animae, uel quo discrimine ripas
hae linquunt, illae remis uada liuida uerrunt?

(Eneida, Livro VI - versos 318-320)

A Sibila explica brevemente para Eneias que esta multidão de almas desencarnadas rechaçadas pelo barqueiro Caronte não podem ser transportadas para a outra margem do rio porque seus corpos ficaram insepultos, sem túmulo, cadáveres expostos. É vedado ao barqueiro Caronte transportar este tipo de alma que os ossos ficaram insepultos. As almas desencarnadas dos insepultos ficam vagando durante cem anos sem parar ao redor desta margem da praia até que possa ser admitida sua entrada no reino dos mortos.
Esta é a terrível profecia dos primeiros versos da Ilíada de Homero, que os corpos dos heróis fiquem insepultos a mercê de cães carniceiros e aves de rapina. Além do dano corporal, a alma do morto ficaria vagando atormentada pelo mundo dos mortos, sem poder ser transportada em paz para a outra margem do rio. Vejamos essa fala da virgem de Apolo:

Haec omnis, quam cernis, inops inhumataque turba est;
portitor ille Charon; hi, quos uehit unda, sepulti.
Nec ripas datur horrendas et rauca fluenta
transportare prius quam sedibus ossa quierunt.
Centum errant annos uolitantque haec litora circum;
tum demum admissi stagna exoptata reuisunt.

(Eneida, Livro VI - versos 325-330)

De rosto triste, e privados das honras funerárias, estão os amigos de Eneias Leucáspide e Oronte, este chefe da esquadra troiana. Seus barcos afundaram nas águas. Ali perto também encontra a alma do piloto Palinuro. Eneias conversa com Palinuro e este lhe discorre sobre as causas de sua morte além de pedir para seu corpo ser sepultado apropriadamente. A Sibila promete a Palinuro que as devidas honras funéreas serão feitas.
Ao perceber Eneias e Sibila vagando por aquelas paragens, Caronte os questiona sobre o motivo de estarem ali e diz não poder transportar corpos com vida até o reino dos mortos. Caronte fala que já cometeu o erro de transportar Hércules, Pirítoo e Teseu. Hércules arrastou Plutão acorrentado e Pirítoo e Teseu tentaram raptar Prosérpina.
A maga Sibila acalma o barqueiro dizendo que Eneias piedoso não foi até lá sequestrar a esposa de Dite e que seu intento é apenas encontrar a alma desencarnada do pai Anquises. Então a maga Sibila lhe mostra o ramo áureo, acalmando o barqueiro e fazendo-o transportar os visitantes sem mais delongas até a outra margem do rio.
Na outra margem do rio, em terreno encharcado de lodo esverdeado eles encontram o cão Cérbero, abertas as três gargantas, uivando. Logo a maga Sibila lhe atira um pedaço de torta de mel, preparada anteriormente com um narcótico que coloca o cão para dormir.
Nesta região estão as crianças que perderam a vida precocemente. Os condenados por crimes. Minos, antigo rei de Creta, agora é um dos juízes do inferno, presidente do corpo de sombras. Minos convoca a todas as almas desencarnadas e as inquire sobre seus crimes cometidos em vida. Também estão ali os suicidas.
Não muito distante dali estão os Campos Lugentes ou campos da tristeza (lugere em latim significa "chorar"), esta é a região dos infernos onde estão os que morreram por desditoso amor. Como tratado com maiores detalhes no capítulo anterior, Elisa, nos Campos Lugentes estão as vítimas da peste do amor. Por lá Eneias viu as almas  de Prócris e Fedra, Erifile e mais Pasífaa e Evadne, seguidas da bela Laodâmia e de Ceneu, jovem que fora transformado em mulher. Entre estas sombras a vagar pelos Campos Lugentes, Eneias viu a alma da fenícia Dido com sua recente ferida.
Um pequeno adendo sobre estas almas seria fortuito. Prócris era ciumenta e seguiu secretamente o marido numa caçada. Por acidente Prócris foi morta pelo próprio marido. Fedra apaixonou-se pelo seu próprio enteado e não podendo suportar a situação acabou enforcando-se. Erifile levou à morte do próprio marido, Anfiarau, e foi assassinada pelo próprio filho, Alcméon. Pasífaa, fora raptada e teve amores secretos com um touro gerando o filho Minotauro. Evadne se suicidou inconformada com a morte do marido Cafaneu. Laodâmia que após ficar viúva pediu para ver a alma do amado marido por algumas horas, após as quais decidiu segui-lo até o reino dos mortos. Ceneu primeiro foi mulher, mas Netuno o transformou em um homem imbatível. Não podendo matar Ceneu, os Centauros o soterraram sob troncos de uma árvore. Após a morte Ceneu transformou-se novamente em mulher. Sobre a fenícia Dido leia o capítulo anterior, Elisa.
Adiante, Sibila e Eneias chegam ao campo onde estão as almas dos heróis. Tideu, pai de Diomedes, o forte Partenopeu mais o tácito Adrasto. Infinitos troianos mortos na guerra dos dez anos contra os argivos, são eles Glauco, Medonte, os três filhos de Antenor, Polibotes, Tersíloco e por último Ideu.
Os fantasmas cercaram Eneias no Inferno e tentam acompanhá-lo para inquirir sobre o motivo da sua descida até lá. O troiano Eneias então avista o espírito de Deífobo, filho de Príamo, ambas as mãos decepadas, o rosco riscado de cicatrizes, perdidas as duas orelhas e o nariz deformado e feio. Deífobo tentava esconder as feridas e com muito custo Eneias o identifica e, em tom amigável lhe fala: Deiphobe armipotens, genus alto a sanguine Teucri, quis tam crudeles optauit sumere poenas? (valoroso Deífobo, sangue precioso dos troianos, diga-me quem te marcou desta forma com tanta crueldade? v. 499-500).
Deífobo responde que o Destino fatal e a execrável maldade de Helena o deixaram assim mutilado. Bonita lembrança, diz Deífobo, sendo irônico com a situação: Sed me Fata mea et scelus exitiale Lacaenae his mersere malis; illa haec monumenta reliquit. (v. 511-512). Deífobo casa-se com Helena após a morte de Páris. Helena acabou dando sinal com uma tocha acesa na mão para os argivos invadirem os muros de Troia. Helena entorpeceu Deífobo e outros guerreiros troianos com drogas, e, quando estes estavam dormindo, retirou suas armas e deu sinal para Menelau.
Após muito chorar com as histórias do compatriota, a sacerdotisa de Apolo exorta Eneias a partir. Deífobo termina o seu discurso e dilui-se nas sombras.
Eles chegaram a um ponto extremo onde o caminho se divide. Para a direita está o palácio de Plutão rumo ao Elísio. Na esquerda as escuras paragens do Tártaro onde os maldosos recebem as penas pelos crimes cometidos em vida. Em frente ao caminho da esquerda se vê uma porta gigante de fortes colunas, de aço tão duro que nem as espadas dos deuses poderiam quebrá-las. Ao lado há uma torre onde a Fúria Tisífone se encontra, com um manto coberto de sangue. Esta Fúria é a responsável por punir os culpados. Tisífone nunca fecha os olhos, de noite e de dia sempre a escrutar, vigilante.
Ouve-se frequentes gemidos, açoites vibrando com raiva, barulhos de metal contra a superfície, barulho infernal de grilhões sendo arrastados. Eneias pergunta para a filha de Glauco quais tipos de crimes estes espíritos cometeram e quais as penas a eles impostas que provocam tantos lamentos e dores: Quae scelerum facies, o uirgo, effare; quibusue urguentur poenis? Quis tantus plangor ad auras? (v. 560-561).
A vate dos deuses responde Eneias que ninguém puro pode entrar nestes domínios de criminosos. Radamanto de Creta exerce o comando duríssimo deste lugar. Ele interroga os culpados e os pune, os malignos, obriga a confessar os delitos praticados em vida, com dolo, protelando o castigo até ao último momento da morte. Depois, Tisífone salta sobre os criminosos e os açoita severamente com seu chicote. No Tártaro se encontram os Titãs, seis filhos do Céu e da Terra, os Aloidas que revoltaram-se contra Júpiter e decidiram enfrentá-lo e Salmoneu, o mortal que com patadas e ranger de rodas tentava imitar os trovões e as tempestades de Júpiter. Júpiter fulmina Salmoneu por tentar imitá-lo.
Outros criminosos famosos também estão no Tártaro e a Sibila os aponta e os descreve para Eneias. Tício, gigante morto por Júpiter após tentar violar Latona. Os Lápitas, o rei Pirítoo e seu filho Exíone, este tentou violentar Juno, sofrendo severa punição de Júpiter. A mais velha das Fúrias, Alecto, está de guarda perto dali. Sibila termina dizendo que no Tártaro estão aqueles que nutriram ódio pelos próprios irmãos, aqueles que agrediram os pais, os que descuidaram dos clientes, os avarentos, quem morreu no adultério, os partidários da guerra contra seus próprios senhores, os revolucionários.
Sibila diz que não adianta Eneias querer saber todos os tipos de penalidades para cada crime. Uns rolam grandes penhascos, das rodas dos carros outros pendem. Teseu sentado se encontra e sentado estará sempre, todo infeliz. Teseu tentou violentar Helena. Com estes exemplos aprenda a acatar o mandado dos deuses, diz Sibila para Eneias.
Após esta horrenda jornada pelo Tártaro, Sibila e seu companheiro Teucro chegam até a morada das almas afortunadas e felizes, os Campos Elísios. Dos moradores desta região, alguns se exercitam em campos de grama ou se divertem de várias maneiras na areia dourada, outros em coro contornam, ao ritmo de belas cantigas. Lá está o sacerdote da Trácia, Orfeu, a arrastar a toga muito bela em consonância com a lira de sete cravelhas, Orfeu canta e toca o instrumento com palheta de marfim.

fortunatorum nemorum sedesque beatas.
Largior hic campos aether et lumine uestit
purpureo, solemque suum, sua sidera norunt.
Pars in gramineis exercent membra palaestris,
contendunt ludo et fulua luctantur harena;
pars pedibus plaudunt choreas et carmina dicunt.
Nec non Threicius longa cum ueste sacerdos
obloquitur numeris septem discrimina uocum,
iamque eadem digitis, iam pectine pulsat eburno.

(Eneida, Livro VI - v. 639-637)

A Sibila então questiona Museu sob o paradeiro da alma de Anquises, que estava logo por ali, com vivo interesse se encontrava a examinar umas almas num prado frondoso, almas destinadas à luz, entre as quais ele viu toda a linhagem futura de seus descendentes. Logo que Anquises percebe Eneias a caminhar pelo prado florido, tomado de júbilo, lhe estende as mãos, lágrimas compassivas a cair e fala ao filho emocionado que está muito contente de revê-lo e saber que conseguiu chegar até um lugar tão obscuro para ver o próprio pai. Anquises deseja apenas ouvir a voz do filho por um instante efêmero, gastar alguns minutos da infinita temporalidade em colóquios com o amado rebento.
Eneias tenta abraçar o espírito de Anquises três vezes, chorando por ver o pai e pela frustração de não conseguir tocá-lo novamente. Nisso, Eneias percebe um pequeno bosque no fundo do vale ameno, de árvores inquietas com a brisa leve, um sereno recolhimento que o rio Letes refrescado ao longe.
Ao redor das águas do rio Letes paira uma multidão de espíritos, como um enxame de abelhas.
Pasmo com aquela visão e ignorando o porque de tudo aquilo, Eneias pergunta o nome do rio e o motivo de tão grande conglomerado de gentes a povoar suas plácidas margens. Então o pai lhe responde que aquelas almas ao redor do rio Letes estão fadadas a reencarnar, e para tal precisam beber as claras águas do rio Letes para obterem o esquecimento total do que na vida anterior fizeram. Aqui nós temos um breve renascimento das filosofias platônica, órfica e pitagórica, sobre o mundo dos espíritos e a reencarnação das almas:

Tum pater Anchises: "Animae, quibus altera fato
corpora debentur, Lethai ad fluminis undam
securos latices et longa obliuia potant.

(Eneida, Livro VI, v. 713-715)

Atônito, Eneias pergunta ao pai se é crível que alguns espíritos queiram ainda voltar à terra para encarnarem-se em corpos materiais. Que insano desejo de a luz do dia rever, e reiniciar as canseiras da vida?

"O pater, anne aliquas ad caelum hinc ire putandum est
sublimes animas iterumque ad tarda reuerti corpora?
Quae lucis miseris tam dira cupido?"

(Eneida, Livro VI, v. 719-721)

O pai promete explicar para o filho e curá-lo de sua cegueira. Desde o início o santo espírito dá vida aos céus, a terra extensa, as campinas onduladas, o globo da lua resplandecente e as estrelas titânias. Inerente aos membros, a mente agira a matéria e se mistura ao conjunto das coisas, vai dizendo Anquises.
Em vida, os corpos temem, desejam, padecem de suplícios e gozos, cegos à luz, confinados nas trevas de suas clausuras materiais. Nem mesmo quando se despem do corpo físico perdem as aflições e os vícios deste corpo terreno.

Igneus est ollis uigor et caelestis origo
seminibus, quantum non noxia corpora tardant
terrenique hebetant artus moribundaque membra.
Hinc metuunt cupiuntque, dolent gaudentque, neque auras
discipiunt clausae tenebris et carcere caeco.
Quin et supremo cum lumine uita reliquit,
non tamen omne malum miseris nec funditus omnes
corporae excedunt pestes, penitusque necesse est
multa diu concreta modis inolescere miris

(Eneida, Livro VI - v. 730-738)

Anquises diz que o tempo nos infernos é necessário para limpar a alma destes vícios terrenos, expungir as manchas da alma para o espírito ficar limpo e tornar-se a etérea essência de origem, o fogo do início de tudo. Assim, passados mil anos, um deus convoca as almas às margens do rio Letes para que, esquecidas de tudo o que viveram, possam retornar à vida terrena.
A Sibila então leva Eneias até a multidão de almas prestes a reencarnar na vida terrena enquanto Anquises vai descrevendo os futuros perigos que o filho enfrentará no Lácio e a futura linhagem de Dárdano, incluindo Júlio César e Otaviano Augusto, os Irmãos Graco, os dois Cipiões, etc.
Ao final, Anquises conduz Eneias e a Sibila para a saída dos infernos e explica que há duas Portas do Sono, fazendo alusão ao Canto XIX da Odisseia. uma das portas é córnea de fácil passagem as sombras encontram os sonhos verdadeiros. A outra porta é de puro marfim, de que os Manes se servem, para enviar do céu aparências enganosas. Anquises conduz Eneias e a Sibila para a Porta Verdadeira e imediatamente após a saída, Eneias vai procurar seus companheiros e vai até Caieta ou Gaeta, cidade portuária do Lácio.


Carlos Henrique Barbosa - Sibila ou Uma viagem pelo mundo dos mortos. 


PS: Após reler este capítulo percebi algumas dezenas de erros ortográficos e a falta de um addendum sobre a catábase de Odisseu, que também desce aos infernos. Também vou trazer ad lucem um outro addendum a respeito do momento mais intenso da loucura de Dido, cada adendo vai estar presente no final de cada capítulo. Omnia vincit amor (Virgílio, Éclogas, Livro X, linha 69)













Monday, 20 February 2017

Mensagem à Poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens;
contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;
contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que eu preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado - não a magoem... - que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações,
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua pelas praias e pelos céus
E pelas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abatem-se sobre mim, e me impelem para a treva.
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho.
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora...
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível.
Me é totalmente impossível.
Não pode ser não
É impossível.
Não posso.

Vinicius de Moraes - Mensagem à Poesia 

Monday, 30 January 2017

Basic bibliography to read this blog

HOMER: The Iliad, The Odyssey
AESCHYLUS: Complete plays
SOPHOCLES: Complete plays
EURIPIDES: Complete plays
ARISTOPHANES: Complete plays
VIRGIL: The Eclogues, The Georgics, The Aeneid
DANTE: The Divine Comedy
CHAUCER: Troilus and Criseyde, The Canterbury Tales
RABELAIS: Gargantua and Pantagruel
SHAKESPEARE: Complete plays, soneto
CERVANTES: El hidalgo y caballero Don Quijote
MILTON: English minor poems, Paradise Lost, Samson Agonistes, Areopagitica
MORE: Utopy
SWIFT: Gulliver's Travels
CARROL: Alice in the Wonderland and Alice through the mirror
FIELDING: Tom Jones
STERNE: Sense of humor, Tristram Shandy
GOETHE: Faust I and II
MELVILLE: Moby Dick
TOLSTOI: Anna Karenina, War and Peace
DOSTOIEVSKY: The Brothers Karamazov, Crime and Punishment, The Idiot
BUKOWSKY: Complete novels
HERODOTUS: The History
THUCYDIDES: The history of the Peloponnesian War
PLUTARCH: Complete Lives
TACITUS: The Annals, The Histories
MACHIAVELLI: The Prince
MONTAIGNE: Complete Essays
HOBBES: Leviathan
MONTESQUIEU: The Spirit of Laws
ROUSSEAU: A Discourse on the origin of inequality, A Discourse on political economy, The social contract
SMITH: The wealth of nations
GIBBON: The decline and fall of the Roman Empire, The declaration of independence, Articles of confederation, The Constitution of the United States of America
BOSWELL: The life of Samuel Johnson, LL.D
HAMILTON, MADISON, and JAY: The federalist
MILL: On liberty, representative government, Utilitarianism
MARX: The Capital
MARX and ENGELS: Manifesto of the Communist Party.
HIPPOCRATES: Complete Works
EUCLID: Elements
ARCHIMEDES: Complete writings
APOLLONIUS OF PERGA: On conic sections
NICOMACHUS: Introduction to arithmetic
GALEN: On the natural faculties
PTOLEMY: The almagest
COPERNICUS: On the revolutions of the heavenly spheres
GILBERT: On the loadstone
GALILEO: Two new sciences
KEPLER: Epitome of copernican astronomy, The harmonies of the world
HARVEY: Medical writings
HUYGENS: Treatise on Light
NEWTON: Mathematical principles of natural philosophy, optics
LAVOISIER: Elements of Chemistry
FOURIER: Analytical theory of heat
FARADAY: Experimental researches in electricity
DARWIN: The Origin of Species, The descent of Man
JAMES: The principles of psychology
FREUD: Complete Works
PLATO: Complete dialogues, The seventh letter
ARISTOTLE: Complete Works
LUCRETIUS: On the nature of things
MARCUS AURELIUS: The Meditations
PLOTINUS: The Six Enneads
ST. AUGUSTINE: The Confessions, The City of God, On Christian Doctrine
AQUINAS: Summa Theologica
BACON: Advancement of Learning, Novum Organum, New Atlantis
DESCARTES: Philosophical Works, The Geometry
PASCAL: The Provincial Letters, Pensées, Scientific Works
SPINOZA: Ethics
LOCKE: A Letter Concerning Toleration, Concerning Civil Government, An Essay Concerning Human Understanding
BERKELEY: The Principles of Human Knowledge
HUME: An Enquiry Concerning Humam Understand
KANT: Major Philosophical Works
HEGEL: The Philosophy of Right, The Philosophy of History
SHERWOOD ANDERSON: I'm a Fool
ANONYMOUS: Aucassin and Nicolette
LUCIUS APULEIUS: "Cupid and Psyche" (from The Golden Ass)
HONORÉ DE BALZAC: A Passion in the Desert
IVAN BUNIN: The Gentleman from San Francisco
SAMUEL BUTLER: "Customs and Opinions of the Erewhonians" (from Erewhon)
ANTON CHEKHOV: Complete Short Stories, The Darling, The Cherry Orchard
JOSEPH CONRAD: Youth
STEPHEN CRANE: The Open Boat
DANIEL DEFOE: Robinson Crusoe
CHARLES DICKENS: "A Full and Faithful Report of the Memorable Trial of Bardell Against Pickwick" (from The Pickwick Papers)
ISAK DINESEN: Sorrow-Acre
FYODOR DOSTOIEVSKY: White Nights
GEORGE ELIOT: The Lifted Veil
F. SCOTT FITZGERALD: The Diamond as Big as the Ritz
GUSTAVE FLAUBERT: The Legend of St. Julian the Hospitaller
JOHN GALSWORTHY: The Apple-Tree
NIKOLAI GOGOL: The Overcoat
NATHANIEL HAWTHORNE: Rappaccini's Daughter
ERNEST HEMINGWAY: The Killers
VICTOR HUGO: "The Battle with the Cannon" (from Ninety-Three)
HENRIK IBSEN: An Enemy of the People
HENRY JAMES: The Pupil
RUDYARD KIPLING: Mowgli's Brothers
D. H. LAWRENCE: The Rocking-Horse Winner
THOMAS MANN: Mario and the Magician
GUY DE MAUPASSANT: Two Friends
HERMAN MELVILLE: Billy Budd
MOLIÈRE: The Misanthrope, The Doctor in Spite of Himself
EUGENE O'NEILL: The Emperor Jones
EDGAR ALLAN POE: The Tell-Tale Heart, The Masque of the Red Death
ALEXANDER PUSHKIN: The Queen of Spades
SIR WALTER SCOTT: The Two Drovers
GEORGE BERNARD SHAW: The Man of Destiny
RICHARD SHERIDAN: The School for Scandal
ISAAC SINGER: The Spinoza of Market Street
ROBERT LOUIS STEVENSON: The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
JOHN M. SYNGE: Riders to the Sea
IVAN TURGENEV: First Love
MARK TWAIN: The Man That Corrupted Hadleyburg
VOLTAIRE: Micromégas
OSCAR WILDE: The Happy Prince
MATTHEW ARNOLD: The Study of Poetry, Sweetness and Light
SIR FRANCIS BACON: Of Beauty, Of Discourse, Of Studies
CLARISSA LAKE: Madame Bovary: First French Essay on Kalon Kakon Structure
THOMAS DE QUINCEY: Literature of Knowledge and Literature of Power, On the Knocking at the Gate in "Macbeth"
THOMAS STEARNS ELIOT: Dante, Tradition and the Individual Talent
WILLIAM HAZLITT: My First Acquaintance with Poets, On Swift, Of Persons One Would Wish to Have Seen
DAVID HUME: Of the Standard of Taste
SAMUEL JOHNSON: Preface to Shakespeare
CHARLES LAMB: My First Play, Dream Children, a Reverie, Sanity of True Genius
SAINTE-BEUVE: What Is a Classic? , Montaigne
FRIEDRICH SCHILLER: On Simple and Sentimental Poetry
ARTHUR SCHOPENHAUER: On Style, On Some Forms of Literature, On the Comparative Place of Interest and Beauty in Works of Art
PERCY BYSSHE SHELLEY: A Defence of Poetry
WALT WHITMAN: Preface to Leaves of Grass
VIRGINIA WOOLF: How Should one Read a Book?
HENRY ADAMS: The United States in 1800 (from History of the United States of America)
SIR FRANCIS BACON: Of Youth and Age, Of Parents and Children, Of Marriage and Single Life, Of Great Place, Of Seditions and Troubles, Of Custom and Education, Of Followers and Friends, Of Usury, Of Riches
EDMUND BURKE: Letter to the Sherrifs of Bristol
JOHN BAGNELL BURY: Herodotus
JOHN C. CALHOUN: The Concurrent Majority (from A Disquisition on Government)
THOMAS CARLYLE: The Hero is a King
KARL VON CLAUSEWITZ: What is War? (From On War)
JEAN DE CRÈVECOUER: The Making of Americans (from Letters from an American Farmer)
DANTE ALIGHIERI: On World Government (from De Monarchia)
RALPH WALDO EMERSON: Thoreau
MICHAEL FARADAY: Observations on Mental Education
BENJAMIN FRANKLIN: A Proposal for Promoting Useful Knowledge Among the British Plantations in America, Proposals Relating to the Education of Youth in Pensylvania
GREAT DOCUMENTS: The English Bill of Rights, Declaration of The Rights and Man and of the Citizen, The Virginia Declaration of Independence, Charter of the United Nations, Universal Declaration of Human Rights
FRANÇOIS GUIZOT: Civilization (from History of Civilization in Europe)
NATHANIEL HAWTHORNE: Sketch of Abraham Lincoln
DAVID HUME: Of Refinement in the Arts, Of Money, Of the Balance of Trade, Of Taxes, Of the Study of History
WILLIAM JAMES: On a Certain Blindness in Human Beings, The Energies of Men, Great Men and their Environment
THOMAS JEFFERSON: The Virginia Constitution (from Notes on Virginia), First Inaugural Address, Biographical Sketches
IMMANUEL KANT: Perpetual Peace
LA BRUYÈRE: Characters
ABRAHAM LINCOLN: Adress at Cooper Institute, First Inaugural Adress, Letter to Horace Greeley, Meditation on the Divine Will, The Gettysburg Adress, Second Inaugural Adress, Last Public Adress
HANIEL LONG; The Power Within Us
LUCIAN: The Way to Write History
THOMAS BABINGTON MACAULAY: Machiavelli
THOMAS ROBERT MALTHUS: The Principle of Population (from Population: The First Essay)
JOHN STUART MILL: Childhood and Youth (from Autobiography)
THOMAS PAINE: A Call to Patriots-December 23, 1776 (from The Crisis)
PLINY THE YOUNGER: The Eruption of Vesuvius (from Letters)
PLUTARCH: Of Bashfulness
WILLIAM H. PRESCOTT: The Land of Montezuma (from The Conquest of Mexico)
JEAN JACQUES ROUSSEAU: A Lasting Peace Through the Federation of Europe
JOHN RUSKIN: An Idealist's Arraignment of the Age
ARTHUR SCHOPENHAUER: On Education
ROBERT LOUIS STEVENSON: The Lantern-Bearers
JONATHAN SWIFT: Resolution When I Come to be Old, An Essay on Modern Education, A Meditation Upon Broomstick, A Modest Proposal for Preventing the Children of Ireland from Being a Burden to Their Parents or Country
CORNELIUS TACITUS: The Life of Gnaeus Julius Agricola
HENRY DAVID THOREAU: Civil Disobedience, A Plea for Captain John Brown
ALEXIS DE TOCQUEVILLE: Observations on American Life and Government (from Democracy in America)
MARK TWAIN: Learning the River (from Life on The Mississippi)
VOLTAIRE: English Men and Ideas (from Letter on the English)
GEORGE WASHINGTON: Circular Letter to the Governors of All the States on Disbanding the Army, The Farewell Adress
WALT WHITMAN: Death of Abraham Lincoln
VIRGINIA WOOLF: The Art of Biography
XENOPHON: The March to the Sea (from The Persian Expedition), The Character of Socrates (from Memorabilia)
SIR FRANCIS BACON, The Sphinx
CLAUDE BERNARD: Experimental Considerations Common to Living Things and Inorganic Bodies
KEES BOEKE: Cosmic View
TOMMASO CAMPANELLA: Arguments for and Against Galileo (from The Defense of Galileo)
RACHEL L. CARSON: The Sunless Sea (from The Sea Around us)
EVE CURIE: The Discovery of Radium
CHARLES ROBERT DARWIN: Autobiography
SIR ARTHUR EDDINGTON: The Running-Down of the Universe
ALBERT EINSTEN and LEOPOLD INFELD: The Rise and Decline of Classical Physics (from The Evolution of Physics)
LOREN EISELEY: On Time (from The Immense Journey)
JEAN HENRI FABRE: A Laboratory of the Open Fields, The Sacred Beetle
MICHAEL FARADAY: The Chemical History of a Candle
GALILEO GALILEI: The Starry Messenger
SIR FRANCIS GALTON: The Classification of Human Ability (from Hereditary Genius)
J. B. S. HALDANE: On Being the Right Size
H. L. F. VON HELMHOLTZ: On the Conservation of Force
THOMAS HENRY HUXLEY: On the Relations of Man to the Lower Animals, On a Piece of Chalk
SIR JAMES JEANS: Beginnings and Endings
SIR CHARLES LYELL: Geologial Evolution (from The Principles of Geology)
DMITRI MENDELEEV: The Genesis of a Law of Nature (from The Periodic Law of Chemical Elements)
IVAN PETROVICH PAVLOV: Scientific Study of the So-called Psychical Processes in the Higher Animals
JOHN TYNDALL: Michael Faraday (from Faraday as a Discoverer)
FRIEDRICH WOHLER: On the Artificial Production of Urea
NORMAN ROBERT CAMPBELL: Measurement, Numerical Laws and the Use of Mathematics in Science
WILLIAM KINGDON CLIFFORD: The Postulates of The Science of Space
TOBIAS DANTZIG: Fingerprints, The Empty Column
LEONHARD EULER: The Seven Bridges of Konigsberg
ANDREW RUSSELL FORSYTH: Mathematics, in Life and Thought
LANCELOT HOGBEN: Mathematics, The Mirror of Civilization
EDWARD KASNER: and JAMES R. NEWMAN: New Names for Old, Beyond the Googol
PIERRE SIMON DE LAPLACE: Probability (from A Philosophical Essay on Probabilities)
CHARLES SANDERS PEIRCE: The Red and the Black
HENRI POINCARÉ: Space, Mathematical Creation, Chance
BERTRAND RUSSEL: The Study of Mathematics, Mathematics and the Metaphysicians, Definition of Number
ALFRED NORTH WHITEHEAD: On Mathematical Method (from An Introduction to Mathematics), On the Nature of a Calculus
HENRY ADAMS: St. Thomas Aquinas
SIR FRANCIS BACON: Of truth, Of Death, Of Adversity, Of Love, Of Friendship, Of Anger
SIR THOMAS BROWNE: Immortality (from Urn-Burial)
CICERO: On Friendship, On Old Age
WILLIAM KINGDON CLIFFORD: The Ethics of Belief
JOHN DEWEY: The Process of Thought (from How we Think)
RALPH WALDO EMERSON: Nature, Self-Reliance, Montaigne; or, The Skeptic
EPICTETUS: The Enchiridion
EPICURUS: Letter to Herodotus, Letter to Menoeceus
JOHN ERSKINE: The Moral Obligation to be Intelligent
WILLIAM HAZLITT: On the Feeling of Immortality in Youth
WILLIAM JAMES: The Will to Believe, The Sentiment of Rationality
JOHN STUART MILL: Nature
WALTER HORATIO PATER: The Art of Life (from The Renaissance)
PLUTARCH: Contentment
GEORGE SANTAYANA: Lucretius, Goethe's Faust
VOLTAIRE: The Philosophy of Common Sense (from Philosophical Dictionary)


Carlos H. Barbosa- basic bibliography 

Tuesday, 24 January 2017

Elisa

As pessoas geralmente tem alguma noção do assunto quando se trata dos clássicos universais da literatura. Alguém já viu uma pintura tratando do rapto das sabinas, uma escultura com um homem musculoso, todo distorcido tentando escapar da fúria de duas serpentes, que ameaçam e cumprem a promessa de assassinar seus dois pequenos filhos. Tampouco deve-se desconsiderar a música e o cinema, os desenhos animados da Walt Disney e outras produções cinematográficas que resgatam os mitos, trazendo o deleite e a paixão de volta à nossa sociedade. Todos conhecem um trecho de algum poema épico, uma citação, uma passagem marcante.
Falar dos clássicos é trazer aquilo que existe de mais singelo e humano dentro de uma sociedade, considerando o pressuposto de que a literatura contribui para a formação do caráter individual, forma a moral e delineia a ética dos sujeitos inseridos em um contexto histórico.
Os medos, as angústias, os erros, a humanidade sintetizada em versos. Os clássicos tem o poder de transmitir aquelas emoções eternas de nossos iguais. A solidão, a tristeza, a vingança, a raiva. O ciúmes e o rancor, a hipocrisia, a inveja; não há um clássico em que estas e outras emoções não sejam pintadas vivamente, o que nos atrai, nos educa, nos ensina que a vida pode ser complexa e a medida certa das coisas, um tipo de arte que além de causar prazer cumpre a mais alta função pedagógica dentro de qualquer sociedade: educar a alma em um sentido estético de apreciação da beleza.
E impossível conhecer um sujeito que nunca ouviu falar de uma história da bíblia ou do alcorão. Da mesma forma, mesmo indiretamente, sabemos das histórias de Homero, Hesíodo e de Virgílio. Se a humanidade tem algo em comum, que pode ser compartilhado por todas as tribos em todas as épocas, é a capacidade de criar fantasias capazes de aniquilar a realidade e trazer os corações mais distantes próximos um do outro. A capacidade de se entreter, de ter compaixão com uma criação artística demonstra que todos os povos são capazes de amar e sofrer.
Essa empatia pela representação da vida humana é necessária dentro de um contexto social onde os humanos estão cada vez mais desconfiados uns dos outros, tendo medos, paranoias e preconceitos. Em algum momento de sua vida o homem precisa de uma distração que lhe sirva como prazer mas que ao mesmo tempo possa educá-lo no sentido mais alto da vida, e eis onde surge a literatura.
O espectador de uma tragédia ou de uma epopeia precisa fingir que acredita naquela criação, do mesmo modo que o autor fingiu criar aquelas histórias, essa dupla representação, do leitor e do escritor, cria um elo entre ambos, um elo sublime que os conecta à toda a história da humanidade.
A partir disso apresenta-se diante de nós a bela história da Rainha de Cartago, Dido, também chamada por Elisa. O amor, tratado de forma tão superficial pela hodiernidade é composto com sublime labor por Virgílio, e em alguns versos somos tomados imediatamente por uma criação de um suposto amor que poderia ter acontecido a qualquer um de nós. (ou que desejaríamos nunca ter acontecido).
Para discorrer sobre o modo como o herói Eneias fugiu de Troia, passou pela Trácia e fundou uma cidade chamada Eneia, navegou pelo sul da Grécia pelo Mar Jônio, fundou uma cidade chamada Castrum Minervae no extremo sudeste da península itálica, chegou até o vulcão Etna na Sicília, a seguir pelo vulcão Érix até finalmente aportar em Cartago, e depois seguiu sua viagem pelo sudoeste da península itálica, indo até o submundo na cidade de Cumas até a fundação de Roma, é necessário, antes, parar em Cartago.
Os Livros II, III e IV são dedicados a esta passagem do herói troiano pela cidade de Cartago, onde Eneias torna-se hospede da rainha Dido e lhe conta as terríveis histórias do cerco de Troia pelos aqueus. Ao contrário do que se costuma imaginar, é na Eneida, e não na Ilíada onde se conta o episódio do Cavalo de Tróia construído por Epeu, causa da ruína da cidade do rei Príamo. Parte desta história do Cavalo de Troia também é contada na Odisseia de Homero, especificamente no Canto VIII. O famoso mito do sacerdote de Apolo, Laocoonte, também é contado na Eneida, e não na Ilíada como muitos costumam afirmar.
A Eneida trata do mito de fundação de Roma por Eneias, ainda que a cidade fosse anteriormente designada como Lavínia, nome de uma mulher pela qual Eneias teve de lutar por, e casar-se com ela, e por fim cognome da cidade primitiva de Roma. Mas antes de Virgílio, Homero já havia profetizado esta façanha do herói troiano. Cumprindo a profecia de Homero presente no Canto XX da Ilíada, o autor romano, Virgílio, escreve o poema épico, A Eneida. A profecia de Homero está nos versos 334-341 da edição da Ilíada em língua inglesa traduzida por Ennis Rees 1963-2005:

It is surely already decreed that Aeneas shall outlive
The war, so that Dardanus' seed may not die and his line
Disappear, since Zeus adored Dardanus more than he did
Any other child he had by a mortal woman.
For now Cronos' son has come to despise the house
Of Priam, and surely the mighty Aeneas shall soon rule
The Trojans, and after him the sons of his sons, 
Great princes yet to be born.

Ou os mesmos versos em língua portuguesa na Tradução de Manoel Odorico Mendes:

Salvemo-lo, que Jove há-de agastar-se
De o ver extinto. É fado que a progênie
Permaneça de Dárdano, a mais cara
Prole que de mulher teve o Satúrnio;
A geração de Príamo ele odeia:
Quer pois que Eneias reine, mais seus filhos,
E os que dos filhos procedendo forem.

A supracitada profecia de Homero trata da fuga do herói Eneias de Troia e a subsequente fundação do Império Romano pelo herói, dando continuidade a linhagem dos troianos. A Eneida é um livro mítico e histórico, no qual eventos que eventualmente ocorreram são pintados com os mitos, como por exemplo a descendência da família de Júlio César e Augusto, a qual, segundo a Eneida, deriva de Eneias e da prole Dardânia, descendentes de Júpiter. 
No mito, Eneias é filho de Anquises com a Deusa do Amor, Vênus. Eneias possui um filho com a ilíada Creúsa, chamado Ascânio ou Iulo, donde deriva o nome da gens Iulia/Júlia, a qual pertence o clã de César. Cabe a Ascânio dar continuidade a prole dardânia, fazendo a cidade de Lavínia, futuramente Alba Longa expandir-se e tornar-se Roma, de grandes muralhas:

At puer Ascanius, cui nunc cognomen Iulo
additur (Ilus erat, dum res stetit Ilia regno),
triginta magnos uoluendis mensibus orbes
imperio explebit, regnumque ab sede Lauini
transferet, et longam multa ui muniet Albam. 

(Eneida, Livro I, versos 267-271: Júpiter fala à Vênus)

Júpiter esclarece a origem etimológica do nome Iulo, derivado de Ilium, cognome de Troia. Nos próximos versos, o Deus dos Deuses esclarece para Vênus o porque o povo parente de Heitor dominará a região do Lácio por mais de trezentos anos, até o momento em que a princesa e sacerdotisa Ília dará luz a gêmeos, filhos do deus da guerra, Marte. Estes, por sua vez, são os gêmeos Rômulo e Remo, amamentados pela loba:

Hic iam ter centum totos regnabitur annos
gente sub Hectorea, donec regina sacerdos,
Marte grauis geminam partu dabit Ilia prolem.
Inde lupae fuluo nutricis tegmine laetus
Romulus excipiet gentem, et Mauortia condet
moenia Romanosque suo de nomine dicet. 

(Eneida, Livro I, versos 272-277)

Após o herói troiano navegar pelo Mar Egeu, Mar Jônio e pelo Mar Mediterrâneo, o mesmo passa pela Sicília e aporta em Cartago, onde é acolhido pela rainha fenícia Elisa, e na condição de hóspede, Eneias narra suas peripécias desde a fuga da cidade troiana em chamas, o famoso episódio do Cavalo de Troia, A desgraça do sacerdote Laocoonte, até chegar no norte da África, cidade da também fugitiva rainha fenícia Dido.
A empatia de Dido ou Elisa pelo herói troiano não é fortuita, pois a mesma fundara Cartago após sair fugida da cidade fenícia de Tiro, uma vez que o irmão de Dido, Pigmaleão, assassinara Siqueu, marido de Dido, para usurpar o poder e tomar o trono, em uma trama algo análoga ao Hamlet de William Shakespeare, onde Claudius, irmão do Rei da Dinamarca Hamlet, o envenena colocando tóxico no ouvido do irmão e assim toma o poder político. 
Nos livros II e III Eneias assume o papel de rapsodo e cumpre seu exórdio diante da corte cartaginesa, papel também cumprido por Odisseu nos Cantos IX, X, e até verso 386 do Canto XI na Odisseia, ao narrar suas peripécias para o rei Alcínoo e a rainha Aretê.
A rainha Dido fica encantada com as histórias de Eneias, com seu belo filho Ascânio e pede para o mesmo ficar com ela em Cartago, o que é cumprido pelo herói troiano até o surgimento de um pedido de Mercúrio, que lembra Eneias do seu dever cívico de fundar uma nova Troia, ou o germe do futuro império romano.
A rainha Dido é ferida pela peste do amor, visto não como algo bom, mas como a causa de sua própria destruição. Amor como sinônimo de peste, algo malévolo à saúde o que é descrito em termos líricos pelo poeta romano Virgílio de modo original e sincero. Nos primeiros versos do Livro IV, Dido é apresentada como ferida por uma cega paixão, ela nutre em suas veias uma chaga, e como uma chama incandescente a imagem de Eneias queima em sua mente e seu coração devastado.
De tanto pensar em Eneias a rainha Dido não consegue mais dormir, sofrendo ataques de insônia, e ferida de morte pela flecha de Cupido, Dido fala com sua irmã, Ana, que sofre de pesadelos horríveis e das qualidades excepcionais do guerreiro troiano:

At regina graui iamdudum saucia cura
uulnus alit uenis et caeco carpitur igni.
Multa uiri uirtus animo multusque recursat
gentis honos; haerent infixi pectore uultus
uerbaque, nec placidam membris dat cura quietem.
Postera Phoebea lustrabat lampade terras
umentemque Aurora polo dimouerat umbram,
cum sic unanimam alloquitur male sana sororem:
"Anna soror, quae me suspensam insomnia terrent! (...)

(Eneida, Livro IV, versos 1-9)

A seguir a irmã da rainha Dido lhe dá muitas esperanças sobre como seria proveitosa a união de troianos e cartagineses:

Quam tu urbem, soror, hanc cernes, quae surgere regna
coniugio tali! Teucrum comitantibus armis

(Eneida, Livro IV, versos 47-48)

O discurso da irmã Ana deu ainda mais esperanças para a rainha Dido. Entenda-se aqui neste contexto a esperança não como algo benevolente, mas o contrário disto, como é narrado no mito de Pandora, que abriu a jarra contendo os males que Júpiter ocultara da humanidade, e ao perceber o erro que cometera, Pandora fecha a jarra, deixando apenas um único mal dentro dela: a esperança.
Esta esperança dada pela irmã de Elisa, aviltou seus sentimentos, fazendo a rainha perder o controle de si mesma e cair em um estado algo demente. A ferida causada pelo amor é fatal e se alastra sem ser notada, arde a rainha infeliz, anda vagando pela cidade, sem saber de onde veio, nem para onde vai, comparada a um veado nos bosques de Creta, ferido por uma seta sem sequer perceber. Do que valem profecias, a ciência e a lógica para alguém apaixonado? Eis o início do primeiro verso que começa a tratar da doença amorosa da rainha de cabelos dourados, Elisa:

Heu uatum ignarae mentes! Quid uota furentem,
quid delubra iuuant? Est molles flamma medullas
interea et tacitum uiuit sub pectore uulnus.
Uritur infelix Dido totaque uagatur
urbe furens, qualis coniecta cerua sagitta,
quam procul incautam nemora inter Cresia fixit
pastor agens telis liquitque uolatile ferrum
nescius; (...)

(Eneida, Livro IV, versos 65-72)

A bela rainha fenícia de cabelos áureos  é atacada pelos sintomas da doença do amor. Elisa está apaixonada até os ossos por Eneias: ardet amans Dido traxitque per ossa furorem, Livro IV, verso 101. Não consegue mais se comunicar com outras pessoas devidamente, interrompe por vezes o discurso sem terminá-lo, absorvida que está pelos pensamentos profundos em Eneias. Elisa geme por ver-se solitária dentro do quarto, na ausência de Eneias é como se ele estivesse ainda presente, a paixão extremada faz Elisa ter alucinações, ver e ouvir tanto o herói troiano como seu filho Ascânio. As consequências dessa paixão é o descaso com os deveres cívicos e políticos de rainha, pois Elisa deixa a construção das torres inacabadas, os jovens não mais praticam exercícios físicos, todas as obras de Cartago paralisam-se como o coração absorvido da rainha:

sola domo maeret uacua, stratisque relictis
incubat: illum absens absentem auditque uidetque
aut gremio Ascanium, genitoris imagine capta,
detinet, infandum si fallere possit amorem.
Non coeptae assurgunt turres, non arma iuuentus
exercet portusue aut propugnacula bello
tuta parant; pendent opera interrupta, minaeque
murorum ingentes aequataque machina caelo.
Quam simul ac tali persentit peste teneri
cara Iouis coniunx nec famam obstare furori, (...)

(Eneida, Livro IV, versos 82-91)

A seguir, Dido fará parte de um joguete das deusas Juno e Vênus, cuja trama consiste em criar uma condição favorável para que o casal enamorado possa satisfazer o apetite erótico. A ocasião é uma caçada entre nobres do povo de Troia e do povo de Cartago, onde Juno faz cair um temporal de água obrigando o casal a se esconder numa caverna, onde ao final consumam o ato do amor, deixando Dido ainda mais inflamada pelo dardânida teucro:

Speluncam Dido dux et troianus eandem 
deueniunt. (...)
Ille dies primus leti primusque malorum
causa fuit; (...)

(Eneida, Livro IV, versos 165-6 e 169-170)

A Fama, deusa das fofocas e dos mexericos espalha a notícia do relacionamento dos apaixonados por toda cidade, o que deixa um pretendente de Elisa, Jarbas, enciumado, levando o mesmo a fazer uma prece para Júpiter. O filho de Saturno ouve as preces de Jarbas e logo envia seu filho mensageiro, Mercúrio levar uma mensagem para o filho de Anquises, cujo conteúdo é a afirmação da construção de um império na Itália, o qual levaria muito longe a progênie dos troianos na direção de todo o planeta e com leis para reger tal império, o famoso direito romano.
Eneias recebe a mensagem e fica com medo da divindade mensageira, a princípio, e em dúvida sobre como dizer a Elisa que deve partir. Eneias quer ficar ao lado do grande amor, mas o dever o chama do alto do Olimpo e o herói troiano é obrigado a fazer uma escolha, onde o dever é mais importante que o querer.
Eneias manda seus capitães das naus Mnesteu, Sergento e Seresto aprontarem as naves e o povo de Troia em segredo, sem que a rainha de cabelos loiros perceba. Enquanto isso Eneias é atormentado pela dúvida: Como fugir de Cartago sem magoar Dido? Mesmo com todo o sigilo e os auspícios dos guerreiros troianos para tornar a fuga o mais discreta e menos dolorosa possível, Dido acaba por desconfiar dos planos de Eneias. Quem pode iludir um coração que ama? (Quis fallere possit amantem? Livro IV, v. 296)
Mais rápida e horrenda do que todos os deuses, A Fama entregou o segredo de Eneias para a rainha fenícia. Dido começa a ficar furiosa com a situação e ao encontrar-se com Eneias o chama de rompedor da fé criada por ambos (pérfido). Eis a triste forma como Elisa aborda Eneias após ter sido informada do segredo da partida:

Dissimulare etiam sperasti, perfide, tantum
posse nefas tacitusque mea decedere terra?
Nec te noster amor nec te data dextera quondam
nec moritura tenet crudeli funere Dido?

(Eneida, Livro IV, versos 305-308)

Após ouvir todos os queixumes de Dido, Eneias continua obediente aos mandados de Júpiter, mantinha ele os olhos fixos no chão e com muito esforço guardava sua emoção, seu verdadeiro amor por Dido em segredo, guardado dentro de seu peito. Alfim Eneias pede para Elisa parar com as brigas, parar de agravar as mágoas de ambos pois ele não busca a Itália por gosto ou prazer, mas porque é o seu dever:

Desine meque tuis incendere teque querelis;
Italiam non sponte sequor.

(Eneida, Livro IV, versos 360-361)

Quando Dido começa a perder o controle total de si mesma, quando coração e razão já não funcionam e no auge do seu delírio deseja até a morte de Eneias, Mercúrio astucioso aparece para Eneias em um sonho e diz para ele fugir o mais rápido possível de Cartago, pois Dido está completamente desvairada, desta vez expressando os sintomas mais nefandos da doença do amor. Mercúrio desperta Eneias durante a madrugada e diz para o herói troiano vencer a preguiça e preparar as naves para partir, e diz que toda mulher é volúvel (Heia age, rumpe moras. Varium et mutabile semper femina, Livro IV, v. 569-570)
Em sua atalaia, a rainha dos cabelos dourados, Elisa, vê a frota troiana partir de Cartago, afastar-se da praia, estendidas as velas e então chega até a apoteose da sua fúria, bate no próprio peito com força, tenta em um golpe de raiva arrancar os próprios cabelos. Nos versos 590 a 629, Elisa pragueja, deseja a morte de Eneias e de seu filho Ascânio, deseja ardentemente que Eneias seja morto e que seu corpo fique insepulto, como o terrível presságio dos primeiros versos da Ilíada de Homero, Elisa faz preces para Juno, os deuses infernais e as Fúrias, enfim, perde completamente o ânimo de vida, tornando-se sombra daquilo que um dia fora. Amor cruel, o que não podes causar no coração da humanidade? (Improbe Amor, quid non mortalia pectora cogis? Livro IV, v. 412)
Dido então pede para a irmã Ana chamar uma feiticeira e fazer arder uma grande fogueira no palácio, sobre o pretexto de fazer uma oferta para a Deusa infernal Hécate. A pressuposta fogueira do encantamento amoroso não passa de mero ardil de Dido com a irmã, sua intenção, talvez até ela mesma desconheça, cega que está e severamente ferida pelo amor. Quando surge o momento propício, Dido, completamente fora de si, deixa seu corpo cair sob a espada que Eneias a presenteara, e alfim seu próprio corpo na fogueira.
No Livro VI, onde Eneias faz a sua catábase, ou seja, sua descida aos infernos, acaba por encontrar a alma de Dido nos Campos Lugentes, lugar do inferno reservado para as  almas vítimas das infinitas veredas da triste peste do amor, e lá, Eneias também encontrou outras almas como a de Prócris e Fedra, também a alma de Erifile e ainda Pasífaa e Evadne, além da bela Laodâmia.
Eneias tenta buscar as melhores palavras para tentar falar com a infeliz alma de Elisa, mas ela já não está mais ali, não estava em vida e agora muito menos. Elisa agora é como uma sombra irritada, sequer olha o amado nos olhos, sempre com o olhar fixo na terra, Elisa não se deixa abalar nem por um instante pelas palavras de Eneias, parecendo mais ter sido esculpida em mármore de Marpesso:

Talibus Aeneas ardentem et torua tuentem
lenibat dictis animum lacrimasque ciebat.
Illa solo fixos oculos auersa tenebat
nec magis incepto uultum sermore mouetur,
quam sira dura silex aut stet Marpesia cautes.

(Eneida, Livro VI, versos 467-471)

Carlos Henrique Barbosa - Elisa ou Uma breve releitura sobre o amor