Thursday, 11 June 2026

Velocidade

 Muitos anos se passaram e com junto com eles, muitas ideias pela minha cabeça. Uma delas é que ontem foi meu aniversário (9 de junho) e parei para me perguntar se ela estaria pensando em mim. Tolo. Se ela não lembra de mim é claro que não vai lembrar do dia do meu aniversário. Isso não importa. 

Uma ideia que passou pela minha cabeça é que ela não me odeia. Porque o ódio é uma forma de sentimento muitas vezes conectada ao amor, e se não for, pelo menos ela sentiria algo por mim. Pior que o ódio é o desprezo, distante, frio, imcompreensível. É. Preferiria que ela sentisse ódio do que desprezo, este último não faço ideia de como lidar com ele.

Ela deve achar que sou louco, talvez isso explique tudo. Mas como me despreza, na verdade não deve achar nada, se achasse, já teria arrumado um jeito de conversar comigo. Essa relutância em não falar comigo sobre hipótese alguma também me trouxe algumas ideias. Por exemplo, outro dia tentei conversar com um grande amigo da adolescência e que faz mais ou menos uns quinze anos que não nos falamos. Ele me respondeu, foi educado, falou um pouco da vida dele e logo veio dizendo "que procura não lembrar de nada do passado, que quer esquecer o passado, que apesar deu ter sido muito importante para a formação humana e filosófica dele tal e tal".

Não há força nem poderio senão em Deus altissímo e grandioso! Onde que um babaca igual eu poderia ter sido importante na formação humana ou filosófica de alguém! Ela sabe disso muito melhor do que eu, porque ela não me conhece hoje, contudo conheceu o idiota que ela namorou. Sim, eu era completamente estúpido e sem noção, e não digo que hoje seja muito diferente só que aprendi uma ou outra coisa e considero minha versão pretérita absurda.

Cheguei a cogitar a possibilidade de um feitiço, um encantamento e apesar de pensar muitas coisas, são apenas conjecturas. Prometi que não iria mais postar, mas falei isso tantas vezes que já perdeu o sentido. Ainda acredito que sou lido por pessoas erradas, pessoas que jamais deveriam estar lendo isso, pois não é destinado a elas. É meu único modo de tentar, de uma galáxia bem distante, ativar uma faísca, um assopro, um mínimo gesto que mostre que o passado é aquilo que acabou, não obstante o passado é o que nos torna presentes no aqui e agora.

Eu não seria quem sou hoje (apesar de ser um Zé Ninguém) se não fosse ela. O que quero dizer é que aprendi muito com a perda e se não esqueci não é por fraqueza espiritual, devaneios mentais ou qualquer outra tolice. Não esqueci porque teve significado. E ainda tem, mesmo que enteja bem enterrado, pelo menos para ela. 

Minha outra hipótese mais coerente é que ela tem medo de falar comigo. E uma boa dose de orgulho e convicção, não voltar atrás, não pestanejar, qualquer vacilo pode ser fatal. Como se eu fosse Don Juan de Marco e qualquer leve atenção pudesse seduzi-la e arrastá-la de volta para mim. Se ela está tão convicta que não quer voltar comigo, porque o desprezo? E porque tantos anos? Não sei se utilizo a forma correta do "porque" para mim isso é fugaz, uma vez que o sentido daquilo que escreve não muda se escrever o "porque" junto ou separado. Ela notaria a diferença, já que sempre foi muito mais inteligente do que eu. Em tudo. O que me orgulha até hoje.

Eu tento por mil maneiras tentar não manipulá-la, mas eu tenho outro recurso? Sim, tenho fé em Deus excelso, deveria largar tudo nas mãos dele e deixar as montanhas se moverem apenas com a força do meu pensamento. Acredito que não foi isso que Ele queria dizer e Ele não veio até aqui morrer por nós para que ficássemos pensando. 

O cristianismo é uma religião da ação e não das palavras. Como não posso tomar ação alguma em relação a este tema, fico com as palavras. Aceitar tudo do jeito que está e acreditar que isso é obra e vontade de Deus poderia ser um erro. Claro que tudo é vontade de Deus, seja para o bem ou para o mal, mas nós temos livre arbitrio e podemos escolher. Ela escolheu o silêncio. Eu escolho as palavras. Meu único recurso, minha única arma.

Veja bem, há quinze anos terminamos, e agora estamos eu em Brasília e ela em Busan." Eu suponho. Ela me pediu tempo e distância. Justo. Dei a ela quinze anos de tempo e a distância é de uns aproximadamente quinze mil quilômetros entre Brasília e Busan. A velocidade é zero porque ela está em estado de inércia. E eu também. Acredito que nem os peritos do MIT ou da NASA poderiam calcular essa velocidade. 

Eu só sei uma verdade que é aquela relacionada ao "memento mori", ou seja "lembre-se de que irá morrer". Não importa quem eu sou nem quem ela é. Iremos morrer e esperamos estar nas graças do Senhor. O problema dela é o silêncio. O meu é o orgulho. Pode ser bastante plausível que eu esteja com o orgulho ferido e esteja apenas em uma disputa de ego. Pode ser que a tenha amado o suficiente para não esquecer o que me torna ao mesmo tempo tolo e singelo. São poucos que possuem essa capacidade de amor platônico. Acho que Platão mesmo não fazia ideia do que era amar sem esperar nada em troca, porque é muito fácil falar de um problema do ponto de vista teórica sem nunca tê-lo vivido na carne.

Como estou nessa de ficar especulando, eu também especulo que depois de mim ela não encontrou ninguém. Claro, deve ter namorado, pode estar até casada e que Deus dê o melhor para ela, não desejo nada de ruim para ela. Entretanto, eu sinto que ela passou a maior parte do tempo solteira, ou pelo menos talvez poderia esse ser o meu desejo recalcado, meu egoísmo aflorando sob a forma mais perversa de conjectura. Tudo é possível debaixo desse sol, pois muitos melhores do que eu já passaram por aqui e muitos ainda vão passar. Não adianta conjecturar, eu deveria fazer igual ela: esquecer, enterrar, amortecer, entorpecer e deixar. 

Sim, eu sei que mesmo tentando parecer simples eu ainda tenho aqueles ares de pedante e fumos de intelectual, quando na verdade, como havia dito previamente, sou nada menos do que um Zé Ninguém, e nisto pode conter um pouco de falsa humildade, que acaba no frigir dos ovos, sendo a verdade. O problema não é a verdade. É não querermos vê-la. É criarmos uma fantasia que oblitera o sentido da verdade ou que criamos uma verdade única para nós mesmos, que por sua vez, pode ser uma mentira esfarrapada, contanto que acreditemos piamente, passa a ser verdade.

Tempo e distância não criaram velocidade. Criaram pessoas opostas por dentro e por fora. Eu ainda lembro da menina que você era, madura, disciplinada e inteligente, e você lembra do moleque que eu era, preguiçoso, vagabundo, drogado, indisciplinado, orgulhoso, burro, sem objetivo de vida e que você amava! Deus pai todo poderoso! O que ela viu em um idiota igual eu era? Hoje eu digo que seria plausível ela me amar, porque hoje tenho um mínimo de maturidade (apesar de ainda não ter um puto no bolso).

Estou cuidando da minha carreira profissional, como você sabe, tenho problemas mentais (sou depressivo e descobri que isso não tem cura), só que de uma depressão profunda que me fez em dado momento largar mão de quase tudo, incluindo eu mesmo. Não sinta-se apiedade ou comiserada, são coisas pelas quais os humanos passam. Tinha certeza que era portador de algum transtorno psicológico mais sério, entretando os especialistas falaram apenas isso, que eu tenho que aprender a viver com a depressão, como se ela fosse um braço ou os dedos com os quais eu digito na velocidade da luz esse texto, pois amanhã tenho muito trabalho a fazer. Você também. Não você curioso que fica tentando descobrir alguma coisa, invejar, sentir algum tipo de nostalgia perversa, ou tentar de alguma forma utilizar o que escrevo contra mim. Não é para você. É para ela, somente ela. Pare de ler, eu imploro, em nome de Deus exalçado, eu imploro de joelhos no chão, não dê continuidade à leitura desse texto que só foi escrito com um único objetivo. Deus irá lhe recompensar caso ouça minhas preces e a recíproca é verdadeira, se você entende do que estou falando. 

Voltando onde estávamos, você amou um idiota e eu amei uma princesa. Não querida, não te elogio de forma diferenciada da qual elogiaria qualquer outra mulher. A verdade é que o tempo passou é agora você é uma senhora. Você é uma completa estranha para mim e tenho até vergonha de estar te falando tudo isso. Quem sou eu para falar com uma renomada professora igual você? Saia de perto de mim seu lixo, não tenho esmolas para te dar. Sim, eu tenho senso de humor ácido e preciso, como sempre, não sinto vergonha de me ofender e se você abriu um sorriso em qualquer momento desse texto isso já é uma graça divina. 

Não penso como antigamente, quando achava que eu possuía algum tipo de poder maligno que seria capaz de te manipular e seduzir por meio de palavras. Hoje, confio em Deus e te entreguei a Ele, para que a partir dele todos sejam abençoados. A vontade Dele tem sido feita e apesar da minha insistência eu aceito, pois a partir dela aprendi as coisas mais importantes da vida. Uma delas foi aprender a viver sozinho, completamente sozinho. Não preciso de amigos, não preciso de parentes, não preciso de ninguém que não nosso Senhor. Não tenho medo da solidão e não deixo de fazer o que tive preguiça, medo, falta de vontade há quinze anos. Não vou falar "atrás" para não cair em uma redundância, sabendo que ela é especialista em língua portuguesa e eu não. Eu tento. Quem sabe um dia eu chego lá. 

Eu pensei muito errado e meus pensamentos errados me mostraram por A  + B = AB que a entrada do inferno pode começar bem aqui na terra. Ocioso ficar percorrendo tudo o que sofri nesses anos por conta do meu orgulho e irresponsabilidade, por ficar jogando a culpa da minha vida nos outros, incluindo ela, que não tinha e não tem nada a ver com isso. Culpei minha mãe, culpei meus amigos, a culpei, e nem Deus escapou das minhas injúrias. Eu tinha que pagar o preço, acredito que ainda estou pagando, mas a dívida está chegando ao fim, espero. Se não tivesse sofrido não teria aprendido a dar valor a nada, continuaria aquele mesmo moleque mimado que achava que sabia de alguma coisa, quando não fundo, não sabia de nada. 

Vivemos e aprendemos, de uma forma ou de outra. Não, não possuo qualquer poder ou força que possa fazê-la mudar de decisão. Devo respeitar e rogar a Deus para que ela esteja bem, se assim for a vontade de Deus. E devo lutar por aquilo que acredito, de maneira honesta, justa, corajosa e fazer apenas aquilo que está sob meu alcance, sem querer jamais desconsiderar os planos divinos e com certeza de que faço o que faço porque tenho fé. Eu acredito que ela deve ter uma boa razão para não falar comigo, porque me achar ela pode em questão de segundos, basta querer. Se estivessemos no século XIX aí sim eu poderia dizer que nunca mais nos veriamos, mas estamos nessa era maldita, onde todos estão conectados online e ao mesmo tempo ninguém está conectado a ninguém e muito menos conectado com Deus. 

Mulher. Você é uma mulher agora, não é mais aquela roqueira sorridente que eu conheci na faculdade. Sinto muito por não ter modos e não demonstrar o mínimo de vergonha ao falar com uma desconhecida igual você. Sim, eu tive que mudar os pronomes pois fiquei cansado de falar "ela" e me dirijo diretamente à você, que é a única pessoa para a qual escrevi esse texto. Se você não é essa mulher, por favor, vaza! Nada contra você, seja lá quem for que não seja ela (confundindo os pronomes), embora acredite que qualquer leitor mediano possa entender e substituir os pronomes por outros substantivos e chegar à conclusão de que você não é ela, ou seja, se você não for a pessoa pela qual e para a qual eu escrevo e destino esse texto, simplesmente, desapareça daqui! 

É complicado escrever sabendo que um tiro que damos aqui pode atingir alvos inesperados e não quero isso. Tenho apenas um alvo e um objetivo. Sem sacanagem, sem manipulação, sem ficar enfeitando demais um bolo que pode muito bem ser servido sem cobertura. Aquilo que lhe falei anteriormente permanece de pé. Há algo espiritual muito forte envolvido na nossa separação, pois poderíamos muito bem ser amigos. E como sempre continuo sendo um ótimo ouvinte, adoro poder ajudar as pessoas e seria um prazer te ouvir, mesmo não podendo fazer nada de concreto para te ajudar, as vezes é bom conversar com um amigo.

Uma amiga me perguntou a nossa história e eu contei. Disse a ela que já tive namoradas e que nenhuma jamais se comparou a você. Pode parecer clichê e totalmente piegas, mas é a verdade: você era amiga, companheira, colega de curso, parceira, amante, namorada, irmã, mãe, prima, confidente, e não sei mais o que. Você era muitas coisas em uma. E tudo passou tão rápido como a velocidade da vida. Quando nos damos conta já não são quinze minutos atrás que saí desesperado do seu quarto e chutei uma lixeira. Tampouco quinze meses. O tempo passa. E como diria Salomão, que a paz esteja com ele, o tempo é o remédio para tudo e há tempo para tudo. Há tempo para amar e tempo para odiar. No nosso caso, há tempo para amar e tempo para desprezar. Aceito tudo com a glória de Deus, que você esteja bem sempre. 

Acredite ou não escrevi esse texto com o coração na mão, como em poucas (ou quiça nenhuma?) ocasiões eu houvera feito. De vez em quando gosto de usar o pretérito mais-que-perfeito simples, é bonito e dá aquele ar de texto do século XIX. Não sei você, eu continuo lendo. Continuo estudando na paz do Senhor. Nada irá me parar a não ser a vontade de Deus. Nada nem ninguém. Se você não conseguiu me parar, nada. Ninguém. Persevero na luta e tento ser humilde, apesar de ser arrogante, contraditório como a vida, como tudo. 

A contradição é o que nos formou. Se Eva não tivesse comido do fruto proibido não estaríamos aqui. A contradição é a semente do bem e do mal e no fundo Deus perdoa a tudo e a todos. Deveríamos tentar ser igual a Ele e nisso, não nego, há uma boa pitada de retórica persuasiva. Não, não sou perfeito, nem quero parecer perfeito. Eu sou o que sou e muito do que sou é graças a você (ela). Falando em contradições e encerrando este melodrama cômico de subúrbio lotado, ainda resta a maior contradição de todas: você amou um moleque que ao meu ver, não tinha nada a ver com você. E não consegue sequer ser colega de um homem que, perdoe-me caso estiver exagerando, tem tudo a ver contigo. Exageros à parte, até no uso excessido de aposto e dessa tremenda metalinguagem, desejo-lhe tudo do bom e do melhor. Minha promessa continua de pé a partir do momento em que você começar a orar por mim (e por você mesma), a partir da hora que você parar de confiar na sua capacidade e confiar apenas na capacidade do Senhor para perceber que há algo de fatalmente errado dentro dessa miríade contraditória que nos expôs há quinze anos de silêncio. Há algo mágico, diabólico, perverso que se não me favorece e não faz bem, tenho certeza que de alguma forma tem tirado algumas cores e sons importantes da sua vida. 

Não somos inimigos e por mais que fossemos, perdoar os inimigos nos liberta. Repito: a verdade vos libertará e não me tome por um desvairado, sei do que estou falando. Sou a pessoa mais cética que você poderia jamais ter conhecido, não acredito em qualquer coisa que atribuem sentido à "magia" ou "feitiço", mas há claramente uma energia, uma parede, um montanha que nos separa. Foi criado por alguém com alguma intenção e tudo o que é feito pelo homem pode ser desfeito por Deus, pois só ele tem o poder, só ele é o único mestre do universo. Fique bem.


PS: Respeito o seu silêncio. Pode continuar a ficar sem falar comigo até o resto das nossas vidas e que Deus nos abençoe. Não é uma tentativa pueril de psicologia inversa é a verdade. E a verdade também consta que em certos momentos de fúria e desespero, acabei destruindo todo o meu passado registrado documentalmente. Não tenho uma fotografia sequer de qualquer coisa que tenha acontecido há mais de dez anos. Eu gostaria muito de contar com a sua compreensão nesse sentido e seria a penúltima coisa que te peço. A última é orar por mim e refletir sobre minha conjectura um tanto plausível de forças malignas estarem trabalhando contra nós. Nada a mais do que isso. Se tiver fotografias, e o motivo que me faz acreditar que você as tenha é que você nunca foi impulsiva, me envie. O meu email continua o mesmo gennarovanzetti@gmail.com e não precisa falar nada, apenas enviar as fotografias, se possível, todas que tiver, mesmo uma ou outra nas quais eventualmente poderíamos estar junto. Que Deus te abençoe. 


PSS: Agora que me dei conta de que você pode achar, com razão, que isso é uma armadilha para eu saber o seu email e ficar te perturbando. Faz todo o sentido e não a culpo pela precaução. Contudo, é possível criar uma conta de e-mail descartável no gmail, yahoo, hotmail ou qualquer outra compania e não usá-lo mais. 

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